Crítica | Festival

A Candidata Perfeita

(The Perfect Candidate, KSA, ALE, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Haifaa Al-Mansour
  • Roteiro: Haifaa Al-Mansour, Brad Niemann
  • Elenco: Mila Al Zahrani, Dae Al Hilali, Nora Al Awad, Khalid Abdulraheem, Shafi Alharthy, Tareq Al Khaldi, Khadeeja Mua'th
  • Duração: 104 minutos

Primeira cineasta da Arábia Saudita, Haifaa al-Mansour assina esse conto fabular e espirituoso sobre A Candidata Perfeita, uma mulher médica que por meio da insubordinação mexe um pouco nas estruturas da sociedade saudita.

Ela é Maryam, filha de um casal de músicos e que tem como irmãs uma adolescente e uma promotora de casamentos. A família é motivo de piada entra a vizinhança, que considera especialmente as mulheres adultas da casa — e a já falecida mãe cantora — se comportam de maneira pouco adequada.

Maryam vai todo o dia para o pronto-socorro da vila trabalhar e enfrentar os olhares tortos de outros médicos homens e de pacientes que se recusam a ser atendidos por uma mulher, mesmo que no local não haja mais nenhum outro médico disponível, mas apenas enfermeiros homens. Ela está cansada do conservadorismo e sonha em ir para outra cidade um pouco diferente, mais progressista, como Dubai. Mas o bilhete de avião, que poderia ser a carta de alforria, não pode ser utilizado. Maryam só pode viajar ou fazer qualquer coisa que exija documentação se tiver uma autorização do seu guardião legal, no caso o pai. Ele está em turnê com a banda e logo ela se vê em apuros.

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A maneira com que al-Mansour desenha a liberdade cerceada de Maryam e os entraves, as forças antagônicas que vão surgindo e minando seus sonhos de independência — ou de descobrir quem ela realmente é — encontram eco em seu primeiro longa e filme mais conhecido até aqui, O Sonho de Wadja. Nele, a menina Wadja tem 10 anos e almeja ter uma bicicleta. Ela encara também sua leva de olhares tortos por ser mais despojada e serelepe, por brincar com meninos e ouvir rock. A bicicleta é a metáfora para a emancipação da garota. Para Maryam, viver sua vida profissional sem ser a toda hora contestada ou desrespeitada, apenas por uma questão de gênero, é o grande sonho.

Foto: Divulgação

Pode soar comum para quem vive no ocidente, mas na Arábia Saudita, onde as mulheres só saem à rua com autorização masculina e têm que viver cobertas com vestes pretas (as abayas) e não podem expor o rosto em público, para isso usando sempre o hijab que só deixa os olhos à vista, são pequenas e importantes vitórias.

E mudar as coisas ao invés de reclamar e ficar se lamuriando interessa mais a Maryam. Como não consegue a autorização do pai ausente, vai até um primo que tem cargo no governo e pede auxílio mas num revés interessante, acaba se candidatando sem querer ao cargo de secretária municipal. Ela resolve, então, seguir em frente, já que quer, de imediato, que a rua que dá acesso ao hospital seja asfaltada.

Mesmo sendo a trama previsível, dada a improbabilidade da médica ganhar a eleição perante a dominação patriarcal e o receio que as mulheres tem de desafiar os homens, A Candidata Perfeita tem bons momentos e a mensagem é passada a contento, com o paciente idoso que se recusa a ser atendido e depois recua, agradece e reconhece a competência de Maryam; as cenas em que as irmãs, mesmo que não totalmente convencidas, apoiam a candidata e passam noites em claro planejando a campanha; ou como a cineasta não força nenhuma barra para criar uma situação romântica entre Maryam e Omar, o neto do paciente, que também passa a ajudá-la.

Fora as nuances que al-Mansour não deixa de lado e ajudam a romper estereótipos que se formam quando pensamos numa sociedade conservadora e machista, como o evento de arrecadação de fundos para a campanha com direito a desfile de abayas elegantes feitas por duas estilistas; o apoio que Omar dá a campanha por acreditar em Maryam, ou a relação de afeto e respeito que Abdulaziz tinha com a esposa e como ele encoraja, mesmo que tardiamente, a filha a não abrir mão de sua força e teimosia — e a si próprio de não desistir de seguir a carreira musical.

A Candidata Perfeita
Foto: Divulgação

“Outras mulheres estão felizes em vê-la concorrer ao cargo?”

Mesmo que poucas mulheres votem ou a maioria delas seja condicionadas a votar em que os maridos mandam, uma semente começa a germinar. Já no terceiro ato do filme, Maryam desafia as regras impostas no reino e vai até a emissora de TV local sem o hijab, respondendo ao entrevistador que não é candidata para defender os interesses das mulheres ou temas “femininos” como jardinagem — que ele insiste em perguntar para evitar constrangimentos — mas sim para representar o povo e lutar por benefícios.

E Maryam segue lutando contra o sistema imposto, contra a intolerância. O paralelo entre a luta dela e a do pai com a banda em turnê, decidindo continuar se apresentando mesmo quando surgem ameaças de grupos extremistas é interessante por ser uma forma que a cineasta encontrou de ilustrar que tudo que saia da ordem imposta incomoda.

Entre derrotas e pequenas vitórias, sem o tom trágico e pesado que muitos filmes passados em países conservadores trazem, A Candidata Perfeita aponta para a reconciliação da protagonista com quem ela é e para um futuro mais promissor para as mulheres sauditas.

A Candidata Perfeita
Foto: Divulgação

Em entrevista para o NY Times publicada nos mês de maio, al-Mansour relatou como fez Wadja escondida numa van e, como hoje, com o cinema foi legalizado na Arábia Saudita, pôde filmar A Candidata Perfeita às claras, sem precisar se esconder ou precisar que homens fossem seus intermediários no set. O filme, inclusive, teve algumas poucas sessões em cinemas pelo reino, quando se qualificou para ser o representante da Arábia Saudita a tentar uma vaga na seleção final do Oscar de Melhor Filme Internacional. Os esforços da cineasta, que desde a adolescência, quando não podia frequentar locadoras de vídeo da sua região, sentia necessidade de expor sua voz — e foi fazendo pequenos vídeos caseiros até ir estudar cinema na Austrália –, compensaram, pois através de seus filmes, ela provoca reflexão no povo saudita para que este seja mais relaxado e tolerante, sem impor às mulheres que fiquem em casa. Elas dirigem não só os carros, como algumas já conseguem ter carreiras e alguma independência — como Maryam.

A Candidata Perfeita participou da seleção do Festival de Veneza e de Toronto em 2020 e al-Mansour fechou um contrato com a Netflix para produzir filmes em seu país e dirigir a série The Selection (bestseller adolescente da obra de Kiera Cass); ela vive há alguns anos nos EUA com os filhos e o marido diplomata, mas nunca deixou de trazer mulheres espirituosas em suas produções nem perdeu as esperanças de que logo outras mulheres do reino sigam seu caminho e se tornem cineastas.

Um grande momento
A música que a mãe cantava pra acalmar na fita

[Festival do Rio no Telecine]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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