Crítica | Streaming

A Comédia dos Pecados

(The Little Hours, CAN, 2017)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jeff Baena
  • Roteiro: Giovanni Boccaccio (livro), Jeff Baena
  • Elenco: Alison Brie, Dave Franco, Kate Micucci, Aubrey Plaza, John C. Reilly, Molly Shannon, Fred Armisen, Jemima Kirke, Nick Offerman, Lauren Weedman, Paul Reiser, Adam Pally, Paul Weitz
  • Duração: 90 minutos
  • Nota:

O diretor Jeff Baena e a atriz Alison Brie se reencontraram esse ano em Entre Realidades, produção distribuída pela Netflix que estreou no Festival de Sundance esse ano e logo depois chegou à plataforma, e, anteriormente, Aubrey Plaza tinha protagonizado sua estreia na direção, A Vida Depois de Beth. Agora a mesma Netflix disponibiliza esse longa que foi realizado entre ambos os filmes, A Comédia dos Pecados, que confirma a vocação para o nonsense e uma certa picardia inesperada e bem-vinda, em contextos geralmente inusitados. Um rapaz que recebe a visita da namorada morta e uma jovem que transmuta várias diferentes camadas de delírio em sua vida pessoal se juntam nessa narrativa para mostrar sua predileção pelo incomum.

Aqui, a ousadia dele é adaptar o “Decamerão” de Bocaccio e revesti-lo com uma roupagem de inacreditável modernidade, refrescando o linguajar original ao mesmo tempo que o perverte. A pergunta que se faz necessária: há espaço para uma nova adaptação e olhar sobre a obra do poeta italiano, além da que Pasolini apresentou ao cinema? A resposta é sim, se o impulso for o mesmo de Baena – não apenas refrescar a obra, como também apresentá-la a um novo público, além de lançar luz mais uma vez sobre as hipocrisias sociais que perduram ainda hoje, muitas delas incutidas pela igreja ao mundo. Com sutileza e sem panfletarismo, o filme escancara padrões hipócritas com muito bom humor.

A Comédia dos Pecados (The Little Hours, 2017)

O roteiro se concentra em um convento no alto das montanhas, com uma breve passagem por um castelo nobre para a apresentação do personagem de Dave Franco, e é justamente por se concentrar em ambiente tão propício ao risco e ao riso que A Comédia dos Pecados funciona tanto. Entendam: um grupo de noviças, madres e um padre, aos poucos cada vez mais envolvidos com pecados, muitos deles ligados a luxúria especificamente, é uma faca de dois gumes – pode funcionar muito, mas geralmente não funciona nada. Baena teve o toque de escolher não apenas o elenco certo, como dar liberdade ilimitada a um grupo de pessoas disposto não apenas a ‘solar’ sozinho, como também a agregar jogadas com outros atletas.

Logo que o filme se apresenta, ao se situar no século 14, no primeiro diálogo entre duas jovens freiras, fica claro que o linguajar utilizado pelo filme teria uma base clássica, mas sendo continuamente desconstruída pela utilização de um coloquialismo bem-vindo que não apenas refresca a narrativa, como subverte as expectativas e amplia o olhar cômico sobre o todo, saindo de um nicho da piada de stand-up grosseira para acompanhar um grupo de mulheres que se expande no empoderamento sem jamais deixar de ser muito engraçado, picante sem jamais ofender e que expande suas próprias ideias para montar um universo rico em possibilidades.

A Comédia dos Pecados (The Little Hours, 2017)

Como já dito, a comédia não funciona com base exclusiva em direção e roteiro. Por melhores que sejam as falas e as tiradas, o timing da montagem tem que ser perfeito e o trabalho de Ryan Brown é de alto nível. Quando este profissional se junta a um elenco do calibre dos já citados Alison Brie, Aubrey Plaza, Dave Franco, além de John C. Reilly (indicado ao Oscar por Chicago), Molly Shannon (de Other People), Nick Offerman (de Anjos da Lei), além da fabulosa participação de Fred Armisen (A Mentira) e da impagável Kate Micucci, uma profissional formada na TV forma-se um grupo de profissionais tão azeitado e acima da média que lá pela metade do filme você já entendeu o nível do produto – que é elevado na segunda metade.

Ainda que seja um filme que não necessariamente surpreenda em seu desenrolar (pelo contrário, os lugares por onde passeia e avança são até bem óbvios), A Comédia dos Pecados vence onde deveria: é um produto definitivamente arriscado, que entende que está em terreno perigoso, não sossega na intenção de provocar e, principalmente, é uma comédia engraçada de verdade. Uma combinação de fatores tão interessada em acertar, com cenas definitivamente impagáveis (como a “noturna na floresta” – protegendo de spoilers – ou a que citarei no grande momento, que é de chorar de rir) são suficientes para garantir uma diversão de nível superior à vontade de chocar, e vai além disso.

Um Grande Momento:
O julgamento.

Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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