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A Grande Nuvem Cinza

(A Grande Nuvem Cinza, BRA, 2016)
Documentário
Direção: Marcelo Munhoz
Roteiro: Marcelo Munhoz
Duração: 71 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Em meio à modernização agrária, uma monocultura permanece extremamente manual, o cultivo de tabaco. Marcada pela carga negativa do produto final, essa cultura tem características muito marcantes, tanto pelo caráter extremamente familiar de produção, quanto pela espera que acompanha cada um dos personagens nela envolvidos.

Em A Grande Nuvem Cinza, o diretor Marcelo Munhoz volta suas câmera para uma pequena comunidade paranaense. Selecionando algumas famílias, com conflitos muito particulares, ele se insere completamente na vida daquelas pessoas e apresenta um trabalho de observação muito apurado.

O modo como ele desenvolve aquele relacionamento, fazendo com que a câmera desapareça completamente, independente do espaço para filmar, é extremamente curioso, principalmente pela intimidade com as pessoas e lugares. Além disso, há uma sensibilidade extra na captação das imagens.

Narrativamente, Munhoz também acerta nos caminhos tomados. Há no filme uma demarcação muito interessante do tempo, figura extremamente presente na vida de qualquer agricultor. O filme toma para si a duração da espera de suas personagens e, embora ela seja longa, não há espaço para o cansaço ou o desinteresse de quem o assiste neste ponto.

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Outra coisa bem executada é a constante comparação entre passado e presente, antigo e atual. Tanto a modernização dos modos de produção, que não são muitas, mas existem, quanto a relação das gerações com o cultivo do tabaco estão demarcadas no filme. Do mesmo modo, um certo olhar para o futuro desta cultura tão familiar, que, com a tecnologia e as mudanças legais, vem encontrando novos caminhos.

É muito curioso acompanhar a dubiedade da relação com o tabaco, o amor genuíno que aquelas pessoas sentem pela plantação e a pressão financeira que ronda as famílias, com a dificuldade cada vez maior de cultivo.

Embora acerte nas escolhas, nas imagens e tenha muita coisa interessante a contar, A Grande Nuvem Cinza traz algumas repetições pouco justificadas e que pouco contribuem para a história. Assim como falha um pouco no modo escolhido para destacar as marcas deixadas pelos problemas causados pelos muitos agrotóxicos utilizados na plantação.

Ainda assim, há muita coisa a ser descoberta com o filme.

Um Grande Momento:
A internet.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

9 Comentários

  1. Cecília, bem, é que eu descobri esse filme porque ele é anunciado por uma ONG antitabagista chamada AMATA, que usa de todos os pretextos possíveis e imaginários para demonizar o fumo de todas as formas. Entre os pretextos está o da “cultura maldita” do fumo. Eles pregam o fim da fumicultura (achando que é fácil substituir por qualquer outro produto agrícola… E que terão os mesmos rendimentos por hectare.

  2. Você é uma pessoa agradável, desculpa, achei que você era uma pessoa militante do ativismo antitabaco. Desejo sucesso para você. Abraços.

  3. Olá, Cláudio!
    Mas é justamente isso que você disse que o texto fala, ou tenta falar.
    Há na plantação de tabaco uma relação curiosa pois, embora haja uma demonização externa do produto final, aquelas famílias amam profundamente aquilo que fazem.
    O que eu tentei falar que há de ruim na cultura, apreendido do que vi do filme, é justamente o conviver com essa nuvem cinza sob a cabeça de estar produzindo algo socialmente condenado; da espera pelo resultado das safras, o que há em qualquer cultura; além da pressão econômica, é claro.
    Outra coisa está justamente nessa ausência de tecnologias agrotóxicas. Não há um avião, mas a exposição do fumicultor ao veneno é muito maior e muito mais perigosa para a saúde do mesmo.
    Não tem muito jeito de assistir ao filme, que acompanhou famílias de fumicultores por três anos, e não ficar surpreso por encontrar uma realidade tão diferente daquela imaginada, e pela bela relação de cada uma dessas pessoas com suas plantações ou com a fumicultura.

  4. Oi, Luiz Carlos! Nem o filme ou o texto acima, sobre o filme, falam mal dessa monocultura.
    O filme é apuradíssimo em sua pesquisa. O diretor Marcelo Munhoz passou três anos acompanhando oito famílias e as safras de tabaco para compor seu documentário.
    Sobre o agrotóxico, há na relação mostrada o perigo. Por ser uma cultura muito manual e pouco industrializada, como todas as outras, há um contrato muito maior do próprio agricultor com os venenos.
    Sobre isso, o filme ainda faz questão de trazer o relato de uma ex-fumicultora, que trabalhava nas plantações antes de todas as regulamentações sanitárias e quando o contato com o produto era ainda maior.
    É um belo filme e que trata tanto a fumicultura quanto os fumicultores com muito respeito.

  5. Opaaa….tem coisa errada ai nesse filme. Agrotóxico? mas a cultura do fumo é a que menos usa agrotóxicos. Agora em julho, o ministro da agricultura Blairo Maggi, foi conhecer as lavouras do sul do país. Saiu abismado, como recebe informações distorcidas desse setor, inclusive, ele declarou que vai defender com unhas e dentes essa cultura, inclusive vai alertar o colega ministro da saúde, para que visite as lavouras, pois não era nada daquilo que tinham conversado em Brasilia, dias antes de conhecer as lavouras. O próprio ministro declarou que ficou pasmem com o pouco agrotóxico usado. Aliás, convido os senhores, para conhecerem as lavouras do RS ou SC, podem escolher aleatoriamente qualquer lavoura e fazer filmagens. Mas garanto, as suas filmagens, não são a realidade. Ou senhores, preferem que eu coloque aqui as matérias e videos dos produtores. Se quiserem, acesse o facebook dos produtores de tabaco, são 4.000, vejam os senhores mesmo a modernização e o que eles falam. Mandem convite, que eles aceitam. Abraços.

  6. Olha. Visitando municípios fumicultores no Rio Grande do Sul, não foi isso que vi. Estive em mais de um e conversei com fumicultores e eles não me parecem infelizes com o trabalho que têm. Fumiculturas são todas constituídas de minifúndios e agricultores familiares, e sabem por quê? Porque a fumicultura proporciona a uma família de agricultores retorno financeiro por hectares que não existe em nenhum outro tipo de cultivo. Visitem, se puderem, uma município no Sul do país onde a fumicultura tenha importância considerável, e tirem suas próprias conclusões. Conversem com fumicultores e pergunte-lhes vocês mesmos se a fumicultura é essa coisa tão ruim que o texto parece querer passar. Lembrem-se que vivemos atualmente numa época de antitabagismo histérico-paranoico sem precedentes. Os antitabagistas querem demonizar o fumo de todas as formas possíveis… A propósito, a fumicultura usa agrotóxicos da mesma forma que qualquer outra plantação., mas não se vê aviões borrifando pesticidas sobre elas, como fazem nos latifúndios do agronegócio. PS: O próprio texto acima menciona:” o amor genuíno que aquelas pessoas sentem pela plantação”

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