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A História do Cinema Negro nos EUA

Black power

(Is That Black Enough for You?!?, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Elvis Mitchell
  • Roteiro: Elvis Mitchell
  • Duração: 133 minutos

No título original em inglês de A História do Cinema Negro nos EUA, novo documentário lançado pela Netflix, cabe muito mais do que o filme se debruça. Isso porque não é a ‘História’ na sua completude a ser contada, mas a forma como o cinema descobre, nos anos 1970, de que a negritude poderia se transformar em uma indústria em si. Ali, bem incrustado nessa década, um movimento surgiria para tornar a questionar uma indústria que muitas vezes não se escondeu racista. Apesar da longa duração, o filme versa pouco sobre o passado e o presente em sua narrativa, quando distante do período; a intenção era centrar a discussão ali, perguntando ‘é negro o suficiente para você?’, em seu batismo original. 

Elvis Mitchell é um pensador e crítico de cinema americano que começa sua carreira como cineasta aqui, onde também roteiriza e narra a produção, se colocando ora como analista, ora como espectador, e até eventualmente em uma postura combativa contra a indústria. Isso carrega a A História do Cinema Negro nos EUA uma carga ao mesmo tempo pessoal e também próxima a quem assiste. Porque Mitchell não é isento ao que está sendo questionado; toda colocação do filme passa por recortes factuais, mas que também se entendem pessoais. Neste lugar, acaba por eventualmente ter sua opinião refletida com o que o espectador possa a vir concordar. É um trabalho que, fugindo a regra, se coloca exposto em suas interpretações. 

A História do Cinema Negro
Hannah Kozak/Netflix

Em determinado momento, Whoopi Goldberg – uma das tantas estrelas reluzentes a darem depoimento – comenta muito acertadamente que estamos em constantes pedidos de desculpas aos brancos, como se não pudéssemos incomodar ou parecer incisivos em nosso desconforto ou revolta. Ela têm razão, e o próprio Mitchell transparece isso ao não se furtar a comentar seus desagrados em relação a tantos filmes, mas sempre com muita delicadeza e cuidado, como se não fosse permitido desagradar um branco. Mesmo já tendo servido tantas vezes a diminuições de maneira contrária, o profissional negro não quer e não pode perder nenhum espaço conquistado, o que os faz se situar em lugares menos enfáticos, com uma suavidade que não foi recebida de volta, historicamente. 

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Um dos prazeres a assistir uma produção de cinema que discorra sobre o próprio cinema é conseguir acessar a um grupo de títulos que nos faça reconstruir as fragilidades em nossas cinefilias, e A História do Cinema Negro nos EUA o faz com muita qualidade. Não estão em cena apenas a mais óbvia produção estrelada por Sidney Poitier, ou os trabalhos que efetivamente foram premiadas, mas ao descobrir nessa obra pedaços esquecidos do passado, é como se fora uma escavação arqueológica. Para quem estudou o período setentista do cinema norte-americano, o filme é uma peça quase obrigatória de montagem (por Michael Engelken e Doyle Esch) com alguma bossa, revelando paralelos bacanas.

A História do Cinema Negro
Hannah Kozak/Netflix

Ainda que guarde um certo conservadorismo de abordagem cinematográfica, Mitchell sabe que sua narrativa é poderosa o suficiente, e suas colocações são fortes e pertinentes. Sua fala sublinha um arco grande, que vai do racismo nada disfarçado do O Nascimento de uma Nação do Griffith até a supremacia negacionista de grandes estúdios diante dos levantes progressistas, como em Doutor Dolittle (que, o filme não menciona, mas Eddie Murphy viria a desconstruir). Por centrar-se nos anos 70, fica lógico imaginar que A História do Cinema Negro nos EUA se concentre no movimento ‘blaxploitation’, mas não somente, indo até melodramas clássicos e até bancados por grandes nomes, e astros indicados ao Oscar.

Como espectador, sinto falta de que o título em português fosse mais verdadeiro, e conseguíssemos avançar até os dias de hoje, passando pelos anos de comédias românticas ‘black’ de sucesso, o surgimento de Murphy, a vitória na categoria principal do Oscar, o advento Halle Berry e tudo mais. Como crítico, A História do Cinema Negro nos EUA trata de um período tão influente para o cinema que é impossível não sair da sessão mais rico. As colocações de Mitchell só tornam tudo ainda mais provocativo, olhando para o lado de evidente sucesso de um movimento, mas sem deixar claro que muitas coisas não foram assimiladas ainda. É uma porta de entrada para que o espectador reconfigure algo como O Matador de Ovelhas, que compreenda a influência imediata de Shaft e que saia do filme com a impressão de que ainda muito precise acontecer. Mas que década hein… 

Um grande momento

O momento Os Embalos de Sábado à Noite

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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