Crítica | CinemaDestaque

A Mãe

A banalização da vida

(A Mãe, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Cristiano Burlan
  • Roteiro: Cristiano Burlan, Ana Carolina Marinho
  • Elenco: Marcelia Cartaxo, Hélio Cícero, Debora Maria da Silva, Tuna Dwek, Dunstin Farias, Rubinho Ferreira, Helena Ignez
  • Duração: 80 minutos

Ao assistir o filme A Mãe de Cristiano Burlan, algumas perguntas pairam na mente do espectador: Quanto vale a vida de um jovem pobre? Qual o interesse do Estado em ajudar uma mãe de periferia em encontrar seu filho desaparecido? Quais são os direitos de uma cidadã comum em um aparelho de Estado sucateado?

Maria (Marcelia Cartaxo), uma mãe solo que vive na periferia de São Paulo, volta para casa à noite e não encontra Valdo (Dunstin Farias), seu filho adolescente. Dá-se início a uma busca ininterrupta pela vizinhança e começa uma investigação através de departamentos públicos. 

Marcélia Cartaxo em cena do filme A Mãe, de Cristiano Burlan
Divulgação

A mãe é implacável na busca pela verdade no desaparecimento de seu filho, e isso a coloca numa posição de vulnerabilidade perante às autoridades e traficantes da região. É nesse âmbito de agonia e desdém da comunidade que a narrativa se transcorre. Apesar do filme ter um argumento politizado e questionador, a obra não explora a ultra violência ou qualquer viés de embelezamento da dor humana. O longa-metragem de Cristiano Burlan segue de forma linear, sem grandes recortes melodramáticos. É quase como um registro documental da peregrinação de Maria.

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Um aspecto interessante na linguagem cinematográfica da obra, é o uso recorrente do dolly in em cenas de impacto, embora esse impacto seja muito mais passivo e reflexivo do que imagético. A movimentação da câmera em zoom permite ao diretor suplicar uma pausa, a fim de que seja absorvido o que foi proposto em cena. A sonoplastia também conversa com esse conceito, sendo um filme silencioso, tal como o imposto silenciamento de Maria.  

A Mãe é um filme de jornada, porém bebe de um realismo profundo e pode até ser considerado uma obra com viés documental. Em algumas cenas são levantados depoimentos de mulheres que vivenciaram fora da ficção a dor da protagonista. Inclusive a participação de Helena Ignez traz em questão os desaparecimentos políticos durante a ditadura civil-militar.

Marcélia Cartaxo em cena do filme A Mãe, de Cristiano Burlan
Divulgação

É importante salientar a entrega de Marcela Cartaxo para a construção de sua personagem. Embora seja notoriamente conhecida pelos grandes papéis em A Hora da Estrela (Suzana Amaral, 1985) e Pacarrete (Allan Deberton, 2019), sua atuação em A Mãe descola destes outros papéis. Atuação esta que é reconhecida não apenas nas cenas de diálogo ou com grandes aspectos dramáticos, até nos momentos de cotidiano ao andar pelas ruas, por exemplo, vemos a postura curvada de uma mulher que não tem qualquer relevância social.

Embora o filme tenha em seu cerne um argumento forte e latente nas dores do Brasil, o longa-metragem se revela uma obra acessível ao grande público e sem agredir aos olhos de quem o assiste. A sua grande proposta, é sim a problematização e reflexão mental acerca de um tema tão comum, mas que não pode ser dado como banal. 

Um grande momento
Desolada, Maria planta uma muda na chuva.

Hannah Sloboda

Hannah Sloboda é publicitária e empreendedora da Agência Wave. Com especialização em audiovisual, ela também é fotógrafa, filmmaker e crítica de cinema. Seu trabalho como crítica envolve o aprofundamento em narrativas lgbt e cinema brasileiro de mulheres. Também é vegetariana e militante LGBT “Escrevo por necessidade de pôr pra fora a transformação que o cinema faz em mim".
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