Crítica | Catálogo

A Médium

Enfim, o doentio

(The Medium, TAI, KOR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Banjong Pisanthanakun
  • Roteiro: Chantavit Dhanasevi, Banjong Pisanthanakun, Siwawut Sewatanon
  • Elenco: Narilya Gulmongkolp, Sawanee Utoomma, Sirani Yankittikan, Yasaka Chaisorn, Boonsong Nakphoo, Thanatchaph Boonsang
  • Duração: 130 minutos

O mockumentário atraiu o cinema de gênero desde sempre. Palavra criada para designar o falso documentário, não é de hoje que o cinema abriu as portas para criações como a de Rob Reiner em Isto é Spinal Tap, longa que acompanhou uma banda fictícia de heavy metal e grande sucesso de público e crítica em 1984. Desde o hit A Bruxa de Blair trazer nova relevância ao subgênero em 1999 se tornando o maior sucesso de seu segmento na História do cinema, o terror de várias partes do mundo tem bebido dessa fonte, de [REC] a Atividade Paranormal, foram inúmeros êxitos e tantos outros fracassos ordinários. Estreia nos cinema, A Médium volta a beber nessa fonte para tentar reclassificar o horror tailandês a uma nova geração, que não acompanhou o sucesso de títulos como Espíritos: A Morte está ao seu Lado

Há quase 20 anos atrás, o jovem Banjong Pisanthanakum tinha apenas 23 anos quando rodou sua estreia em longas, que se tornaria a maior bilheteria do ano do seu país e um imenso sucesso em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil. O filme gerou remakes, continuações e uma fonte para que outros cineastas locais pudessem tentar seu feito. Duas décadas depois, essa nova produção o traz de volta para o centro das atenções, mais maduro e com maiores responsabilidades, assim como ambições. Não há dúvida de que sua mão para o cinema continua firme, e aqui ele parece se afastar do lugar onde foi lançado, que mais parecia um desenvolvimento de títulos do resto do Oriente, mas não especificamente da Tailândia. O autor, enfim, constrói um novo sucesso, agora baseado na cultura local, elevando suas capacidades enquanto contador de histórias. 

A Medium
Divulgação

No entanto, não faltam problemas narrativos à A Médium, a imensa maioria condizentes ao lugar que o filme transita. Não é fácil realizar um mockumentário e conseguir traduzir toda a difícil engrenagem que um título pede para manter a coerência do que é formatado em cena, seja na espinha dorsal do roteiro ou do desenvolvimento imagético. Os gatilhos que precisa apertar para o envolvimento do espectador são de conhecimento de seu diretor, que os realiza com competência e gradativa sedução. Há uma calma na condução da trama que surpreende o espectador do horror, acostumado a encontrar obviedades no ritmo e na forma como situa a ação e reação de filmes do gênero. Porém, os falsos documentários têm uma lógica particular que requer uma lógica interna afiada; afinal, como manter os olhos do observador ligados a partir do momento em que o perigo disser que é coerente fugir?

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Só a suspensão da descrença então para fazer o público entrar no material sem questionar, ou mesmo estranhar os acontecimentos. Não é nem o caso de tolerar ou não quando a necessidade de correr obrigar as câmeras a continuarem ligadas e focadas, mas uma questão muito óbvia, que é o que o roteiro pede. Uma coisa é o filme elaborar esses malabarismos para manter o foco de cada plano acontecendo ininterruptamente, outra coisa é o filme de vez em quando fazer com que os personagens joguem as câmeras pra lá e em outros momentos não. Uma escolha deveria ser feita, ou temos que engolir essa decisão arbitrária de manter a ação filmada em meio ao desespero, ou o filme assume o “realismo” – juntar as duas coisas dentro da mesma narrativa não parece apenas tresloucado, mas completamente absurdo e triste, deixando claro que o que manda no projeto é a providência.

A Medium
Divulgação

Paralelo a isso, Pisanthanakun cria momentos especiais em cena, dependendo apenas da mise-en-scene, e não de decisões estético-narrativas. Com um padrão mais cadenciado para seguir em cena, com uma apresentação menos afobada para introduzir seu enredo e desenvolver os plots que desencadeiam o mote, A Médium pode afastar o espectador mais imediato, que precise de imagem mais direta. O elenco não ajuda na intenção dessa atmosfera, deixando todo o trabalho de indução e sugestão no talento do seu autor, que não conta com um trabalho uniforme do seu grupo. A despeito do que o filme não consegue apresentar em matéria de coerência, há um cuidado raro em não sobrecarregar suas molas com os excessos, até completar 1 h e meia de duração.

Os últimos 40 minutos de A Médium, no entanto, criam o burburinho que o filme vem causando por onde passa, justificando a admiração ainda que não apague a falta de critério estético, até porque os defeitos já apontados não cessem durante eles. Mas o rigor na criação dos planos, o clima de tensão cada vez mais acentuado, a positiva estranheza que só cresce a cada novo minuto, vai dando ao longa o caráter doentio necessário para que esse clímax se torne falado por muito tempo. É uma sucessão ininterrupta de provocações com o público, uma insanidade de embrulhar o estômago pelas consequências aos atos, quase todos com desfechos inacreditáveis. Se é esse tipo de impacto que se espera de um longa de horror, Pisanthanakun mais uma vez consegue impressionar por sua entrega demente aos seus propósitos; da próxima vez, torcemos para que se dedique tanto à criação do universo quanto do arranjo de sua lógica interna. 

Um grande momento
Orando por Mac

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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