Crítica | Streaming

A Protetora

Personagens ocos e ação sem liga

(The Doorman, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Ryûhei Kitamura
  • Roteiro: Lior Chefetz, Joe Swanson, Devon Rose, Greg Rose, Matt McAllester
  • Elenco: Ruby Rose, Jean Reno, Aksel Hennie, Rupert Evans, Julian Feder, Kíla Lord Cassidy, Louis Mandylor, Dan Southworth, Hideaki Itô
  • Duração: 97 minutos

Passado glorioso, um trauma que interrompe a carreira e um evento que exige o retorno das habilidades. É sobre essa estrutura batida que A Protetora se desenvolve. Se há algo diferente é o fato de o protagonismo, geralmente entregue a um homem, veterano de guerra ou ex-guarda-costas agente do FBI, aqui ser de uma mulher que une no currículo as duas atividades. A heroína Ali é vivida por Ruby Rose, que chamou a atenção com sua participação na série Orange Is The New Black e com a desistência do papel principal de Batwoman, logo após a primeira temporada do show.

Seu papel é o de salvar sua família de um grupo de ladrões que invade o lugar em busca de um tesouro perdido. O roteiro a muitas mãos — Lior Chefetz, Joe Swanson, Devon Rose, Greg Rose e Matt McAllester — é um emaranhado de situações absurdas que não têm nada que as naturalmente as conecte, mas também não encontram na trama um esforço para buscar qualquer tipo de liga. Do atentado que leva à frustração de Ali e seu esconderijo na portaria de um prédio, seguimos para um reencontro familiar, com direito a relações proibidas, fotos escondidas em diário, problemas geracionais, furtos de arte na Alemanha nazista, busca a cofres em paredes falsas e vilões gananciosos e descontrolados.

É tanta coisa para ser trabalhada em 97 minutos que o filme não dá conta de seguir uma trilha uniforme, sem aquelas aleatoriedades que parecem surgir do nada e levar a lugar algum, como a dupla que vai desligar a comunicação do prédio ou a história entre os cunhados. Mas Ryûhei Kitamura deixa para lá a ausência de conteúdo lógico e se apega à ação. Desde as primeiras cenas, em um flashback que vem em forma de sonho, com direito a muitas explosões, tiros e efeitos especiais na transição onírico- realidade, o diretor japonês demonstra onde quer investir suas energias.

Com uma carreira marcada pelo cinema de ação e terror, Kitamura tem um apreço pelo superlativo gráfico, seja no destacar do fantástico ou das coreografias de luta. Em A Protetora, as cenas de luta são todas muito elaboradas, cheias de adrenalina e movimentos complexos, para a alegria dos fãs do gênero. O mesmo pode ser dito para o elaborado jogo de gato e rato que se estabelece dentro do próprio edifício. Porém, se há toda essa preocupação com o que se mostra, falta um elemento importante: a relação dos personagens com os eventos e os ambientes.

Rose não consegue se conectar com a personagem e nem com o público. Ainda que o cinema de ação não demande grandes interpretações, é necessário um carisma e uma entrega para que a história realmente se cristalize e isso não acontece aqui. Longe de ser algo exclusivo da protagonista, as atuações são o principal problema de A Protetora. Nem mesmo o veterano — e bom ator — Jean Reno se sai bem como o vilão francês Victor Dubois. Com falas e posturas para lá de exageradas dá o tenta dar o tom dos vilões do gênero, mas a falta de vontade é clara.

O jeito, então, é se desligar de tudo, inclusive da história, e ficar torcendo por mais uma cena de ação. Elas chegam sem economia, mas mesmo haja quantidade, é só isso que se tem para ver mesmo. Uma coletânea de clipes talvez fosse mais proveitosa. 

Um grande momento
Acordando.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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