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A Terra e o Sangue

(La terre et le sang, FRA/BEL, 2020)
Suspense
Direção: Julien Leclercq
Elenco: Sami Bouajila, Eriq Ebouaney, Samy Seghir, Sofia Lesaffre, Redouanne Harjane, Oumar Diolo, Eric Kabongo, Anis Benbatoul, Blaise Afonso, Mario Stasseyns, Gaëtan Lejeune, Lionël Ruzindana, Eric De Staercke, Edson Anibal
Roteiro: Julien Leclercq, Jérémie Guez
Duração: 80 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A Terra e o Sangue

Em 1990, o hit familiar Esqueceram de Mim fez mais do que se tornar um clássico natalino e revelar o diretor Chris Columbus e o mini astro Macaulay Culkin. O filme revitalizou o subgênero ‘filme de invasão’, imortalizando a comédia em sua gênese. Pouco mais de vinte anos antes, Terence Young trazia em Um Clarão nas Trevas uma protagonista cega vivida por Audrey Hepburn tentando se livrar de invasores do produto de um roubo, sendo seguido pelo Terror Cego de Richard Fleischer, onde a deficiente visual da vez era Mia Farrow, aterrorizada no ataque à fazenda de sua família. O sucesso gigantesco do filme de Columbus espalhou de volta o gênero em diferentes versões nas telas (Tortura Silenciosa, Testemunha Muda, etc), que o realizador francês Julien Leclercq revisita aqui, positivamente.

Especialista em thrillers criminais, Leclercq torna a experiência angustiante na medida correta, ao passo que também tenta nos conectar ao drama particular de ao menos três personagens. Saïd e sua filha surda-muda Sarah, e um dos funcionários de sua serraria, Yanis. Cada um deles se encontra em situação-limite por motivos prévios ao desencadear dos eventos: Saïd acaba de descobrir um câncer no pulmão, além de ter a falência batendo na porta; Sarah sonha em estudar desenho e viver longe da proteção do pai; Yanis está em liberdade condicional e precisa de estabilidade. Quando o irmão de Yanis rouba 8 quilos de cocaína e provoca um banho de sangue em uma delegacia, não custa para esses personagens se unirem na tentativa de sobrevivência a um ataque ao negócio falido de Saïd.

Há um cuidado muito evidente em tornar cada ação realizada no filme, seja algo mínimo como o trago em um cigarro, muito intensa, ainda que minimalista e focada. De duração extremamente curta (1h15), praticamente toda a ação se concentra em um dia onde a tensão é evidente, porém sem deixar de observar o meticuloso daquelas ações. O processo manual envolvendo a derrubada das árvores, seu transporte até a serraria e as camadas de eventos que, do tronco se extraia a madeira em estado bruto, tem o cuidado necessário que o filme trata seus protagonistas. Mas A Terra e o Sangue, disponível na Netflix, também é construído de elipses, nem todas resultando em boa saída para a cadeia de acontecimentos, e as vezes somente encobrindo possíveis inconsistências.

O filme observa e ameaça criar muitos pontos positivos criados em sua estrutura, mas não explora a relação imagética deles com ênfase. Sarah, por exemplo… a personagem que obviamente não tem qualquer contato com a violência entre todos, e reage de maneira muito evidente de pânico ante a explosão que eclode ao seu redor. O filme algumas vezes a flagra em meio ao caos e Sofia Lesaffre reage muito bem a algo que não é de sua natureza, mas o filme não mergulha nessa proposta o quanto poderia, assim como Yanis igualmente é pouco explorado pelo projeto. OK, o protagonista evidente é o Saïd de Sami Bouajila, que responde com o talento de sempre, mas o filme se ressente de uma necessidade de abrangência ainda maior por um universo que poderia ser mais rico.

Ainda que o filme se desenhe com uma certa densidade que não consegue avançar, essa ausência de ainda mais estofo – que só faz falta porque o próprio filme apresenta esse potencial – é parcialmente aplacada pela profusão do estado de urgência que perpassa o longa, e entranha pela agilidade da ação. Com tensão constante e intermitente, e efeitos especiais e de maquiagem realizados com extrema qualidade, A Terra e o Sangue nos envolve do início ao fim graças a competência de manipular os elementos do thriller e por conectar o espectador a uma situação de violência extrema, porém muito rápida. Quase como se observássemos uma ação como essa em tempo real.

Pra finalizar, reside no título do filme uma ambiguidade muito oportuna. Com elenco praticamente composto somente por minorias (negros e árabes em massacre mútuo, que a fatia xenófoba francesa provavelmente verá com prazer), é justamente esse sangue derramado que pede também ele um espaço de existência na sociedade, para longe da marginalidade latente que lhes é outorgada. O sangue familiar que forma os elos entre os personagens, também é derramado aos litros até o encerramento – que inclusive homenageia o alien criado por Ridley Scott e difundido por James Cameron – que poderia deixar esse subtexto mais claro, pro benefício próprio.

Um Grande Momento:
Sarah deixa de ouvir antes do tiro inicial

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IMDb

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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