Cinema em linhas

A Vida Invisível e Dona Fernanda em Berlim

Sexta-Feira de um outono berlinense, num dia onde a chuva de todos os dias da semana, saiu de folga.

Mais um fim de semana à vista e mais um festival de cinema, algo que é inflacionário na capital. Difícil é não encontrar no calendário cultural um festival de cinema. Quem pensou em iniciar o fim de semana tranquilo, em casa de pernas pro ar, teve que adiar. Mais uma vez.

Na sexta-feira (22) o festival Around the World in 14 Films, que vai de 21 a 30 de novembro, apresentava os filmes brasileiros mais aguardados do momento para o público berlinense. Enquanto os Festivais de Vila do Conde, do Porto e, desde agosto, os brasileiros puderam ver Bacurau, os berlineses pegaram a rebarba somente de duas exibições. O filme foi premiado na edição 2019 do Festival de Cannes com o Grande Prêmio do Júri e, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, continua sem distribuidora na Alemanha. Por isso, as duas sessões durante o Around the World estavam lotadas, com ingressos previamente esgotados.

A noite de sexta-feira no saguão do complexo de cinemas CineStar dentro de um complexo cultural chamado Kulturbrauerei, tinha semelhanças com o mercado de Feira de Santana. Com a equipe do cinema, visivelmente despreparada, os que chegavam corriam de um guichê para o outro, passavam pelo da imprensa e iam, na esmagadora maioria das vezes, parar no caixa que alistava nomes para a lista de espera.

O meu maior desespero em ir ao cinema em “sessões comuns” e não para jornalistas é o horror que eu tenho dos baldes de pipoca e dos plásticos dos chocolates ecoando durante o filme. Naquela noite não foi diferente. Nem mesmo as cenas de violência über do filme de Kleber e Juliano, animaram o grupo na fileira de trás a se concentrar na obra.

Foto: Fátima Lacerda

Cinema XXL

Para a mesma noite estava agendado a mais nova obra de Karim Aïnouz, diretor cearense e, desde 2004, radicado em Berlim. A produção Brasil-Alemanha, tem do lado do país da salsicha um dos maiores órgãos de fomento cinematográfico, o Medienboard-Berlin-Brandenburg (cidade vizinha). Não é a primeira produção de Karim que conta com o potente parceiro, além da também poderosa The Match Factory, empresa da cidade de Colônia e que distribui o filme pelo mundo.

Aquela noite de uma semana super punk, prometia. Ao todo, mais de cinco horas de filmes. Entre um e o outro e sem mesmo que a maioria dos cinéfilos tivessem deixado a sala do cinema número 8, a equipe de limpeza já chegava com as vassouras elétricas, atropelando quem tentava sair.

Se não me engano, a fila para assistir o filme de Karim sobre as irmãs Gusmão era ainda maior do que para o filme de Kleber. Na primeira fileira, Karim, o sortudo que mora no mesmo bairro em que está localizado o cinema, sentou na primeira fileira e era só felicidade.

Ao ser apresentado pelo diretor do festival antes do início da sessão, ele se disse especialmente feliz pela première em Berlim: “Aqui é minha casa”, declarou depois de iniciar com uma frase na língua de Schiller e Goethe e mudar para o inglês.

A Vida Invisível obteve, em Cannes, o prêmio principal da mostra Un Certain Regard (a primeira vez que um filme brasileiro alcançou tal prêmio); estreou no Brasil dia 21 (um dia antes da première em Berlim, e estreia no dia 26 de Dezembro (segundo dia do feriadão de Natal) nos cinemas alemães.

Mulheres traçando destinos

É uma linha constante nos filmes de Karim o retrato de mulheres de personalidade forte e em busca da felicidade, seus percalços e desafios até chegarem lá. No diálogo com o público ele mencionou que foi criado pela avô e que na sua família, as mulheres teriam tido maior influência sobre ele.

No caso das irmãs Guida e Eurídice, não é diferente. Somos transportados para um cenário do fim dos anos ’50 no qual duas mulheres, teimosamente, ousam em escolher o caminho a percorrer para chegar à felicidade. Guida, embarcando no navio Felicity para a Grécia com aquele que parecia seu príncipe encantado, um marinheiro grego. Eurídice sonha em cursar piano no Conservatório de Viena, na Áustria, o que leva seu pai, à loucura.

O filme é baseado no livro homônimo da escritora brasileira Martha Batalha (Companhia das Letras, 2016), livro que Karim, durante a conversa com o público, depois da exibição filme, declarou “ter lido duas vezes” e nunca mais ter tocado.

As conversas de público com Karim são uma delícia. Ignorando totalmente o status que já tem no olimpo internacional, ele sempre sai do protocolo, se mostra simples e humano, ao mesmo tempo que exibe a visceralidade do amor que sente em fazer filmes.

Supondo que alguém tenha chegado no cinema só para a conversa com o público, não imaginaria que o filme é uma superprodução com um melànge de rostos consagrados e desconhecidos na escolha feliz do elenco, de um argumento coerente e sem buracos e uma direção que merece o adjetivo de primorosa.

Deleites

São muitos os exemplos a citar. O cenário é o Rio de Janeiro entre os anos 1951 e 1958. A Era da Bossa Nova, o preâmbulo da construção de Brasília pelo arquiteto Oscar Niemeyer e das grandes festas no centro da cidade que já foi muito maravilhosa. O guarda-roupa em tons de amarelo usados pelo Antenor, personagem vivido por Gregório Duvivier, oferecem um panorama (hilário) sobre os costumes da época. Também o tom dos vestidos usados pela personagem Guida (Julia Stockler), com babados e no estilo Tomara-que-caia, são um deleite à parte.

A fotografia nos filmes do Karim são sempre um banquete para retina. Ex-estudante de Arquitetura da Universidade de Brasília, seu olho é técnico e orgânico ao mesmo tempo.

A sexualidade é sempre uma linha constante. São cenas SEMPRE viscerais, fortes e muito difíceis de filmar. A cena da noite de núpcias entre Eurídicie e Antenor na banheira tem grande complexidade, pensamento que acomete ao longo da abrangente tomada. A câmera, através do olhar de uma cinegrafista (assim ressaltou Karim duranta a conversa com o público) foi uma das precauções do diretor para tornar a filmagem menos constrangedora para a atriz.”Sim, foi uma cena muito difícil”, revelou.

O distanciamento da câmera que nem sempre mostra tudo é também uma constante na difícil tarefa em filmar sexualidade com sensibilidade e sem possibilitar ao espectador o despencar para o andar de baixo do voyeurismo. Também nesta cena, a mais emblemática do filme “se esconde” a crítica ao machismo e a práticas de sexo sem consentimento da mulher dentro da instituição protegida pelo Estado: o casamento.

Dona Fernanda

No ano em que completa 90 anos Fernanda Montenegro é onipresente no cinema nacional: nos filmes de Karim Aïnoz; Piedade, de Claudio Assis (recentemente exibido no Festival de Brasília), e Juízo, com direção do genro Andrucha Waddington, para o qual a Fernandinha Torres escreveu o roteiro.

Ter Fernanda Montenegro em seu filme é, para qualquer diretor, garantia de público e visibilidade, algo que pode ate chegar em Los Angeles, aos ouvidos dos membros da Academia que já premiou Fernanda com a indicação para o exclusivo círculo de atrizes indicadas para a estatueta mais cobiçada do cinema. Porém, a intensa e abrangente atuação de Fernanda entre novelas (recentemente na pele da temida Dulce em A Dona do Pedaço), viajando pelo Brasil lendo Cartas de Nelson Rodrigues e filmando como workaholic, deixam explícitas seu profundo entendimento de que a profissão “artista” é uma vocação e ela, uma operária da arte no estilo mais prussiano possível: a disciplina e a meticulosidade são suas ferramentas de trabalho.

Na noite da estreia do filme em Berlim, perguntado por um cinéfilo como teria sido a escolha de atores e atrizes e chegando até a participação de Fernanda, Karim respondeu: “ela é um símbolo de resistência”. De fato: Fernanda resiste aos percalços vindos com a idade avançada, mas também à chuva de ofertas que chegam pelo correio em seu apartamento ou no escritório de sua empresária Carmen Mello. Dona Fernanda se diz agradecida, sempre quando “há trabalho”. Antes mesmo de filmar, ele comparecia ao set para assistir as filmagens das cenas da jovem Eurídice para ir alinhavando a personagem, mesmo antes do primeiro dia de gravação.

Operária na resistência de um zeitgeist sombrio e com um Brasil fora de si, ela é a nossa esperança, o melhor exemplo para mulheres dos quatro cantos e o nosso maior incentivo.

No dia em que o elenco e o diretor Karim desfilavam no tapete vermelho em Cannes, direto do Projac, Fernanda postou um vídeo que a mostrava sentada numa cadeira e com texto em forma de papel nas mãos, ela comentava sobre a estreia que acontecia na Costa Azul da França naquele instante. Talvez o ofício no trabalho diário na novela a tenha impedido de comparecer ao tapete vermelho, o que, para ela, é detalhe que não goza, nem de perto, da imprescindibilidade que detém por atorXs com menos bagagem.

Dora/Eurídice/Fernanda

Em termos de minutos, e breve a participação de Fernanda no filme de Karim, porem o seu andar curvado pé pela a varanda de um conjunto habitacional traz recordações de uma outra mulher a quem ela deu vida: Dora. Mais madura, muito mais frágil, teimando com o peso da idade, ela volta com o olhar esbugalhado, o mesmo que apaixonou o jornalista do jornal berlinense Der Tagesspiegel quando veio à Berlinale com Central do Brasil. O andar apressado de “Dora”, sempre correndo atrás do prejuízo, deu lugar ao andar reflexivo de “Eurídice” que carrega uma vida nos ombros e a dor de ter se perdido da irmã. Cartas (ou a falta delas) são o denominador comum na vida dessas mulheres e da própria Fernanda. Por mais que ela esteja nas telas, é o palco o seu berço, seu refúgio, seu lugar de aprendizado.

Em Central, Dora escrevia cartas para reunir pessoas. Em A Vida Invisível as cartas servem como paliativo para a saudade causada pela ausência, pela teimosia em manter o laço com a querida irma. Fernanda lê cartas de Nelson Rodrigues em textos selecionados e costurados por ela mesma, numa programação que dura 60 minutos.

Danke Berlim!

Nesta cidade marrenta, o filme com Dona Fernanda passeando pelas telas, trouxe momentos de ternura, emocao e saudade. Foi aqui que ela teve seu reconhecimento internacional 1998 quando foi premiada com o Urso de Urso como Melhor Atriz. Aqui também vive o diretor do filme e aqui acontece o festival mais político do mundo.

Fátima Lacerda

Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim e cobre o festival desde 1998. Formada em Letras no R.J e Gestão cultural na Universidade "Hanns Eisler", em Berlim é atuante nas áreas de Jornalismo além de curadora de mostras. Twitter: @FatimaRioBerlin | @CinemaBerlin
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