Crítica | Streaming

Acampamento do Pecado

Tesão pela vida alheia

(Yes, God, Yes, EUA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Karen Maine
  • Roteiro: Karen Maine
  • Elenco: Natalia Dyer, Timothy Simons, Wolfgang Novogratz, Francesca Reale, Susan Blackwell, Alisha Boe, Donna Lynne Champlin, Parker Wierling, Allison Shrum, Matt Lewis, Carey Van Driest
  • Duração: 78 minutos

Por volta dos 21 anos, eu entrei na internet pela primeira vez – estávamos em 2001, exatamente a data em que se passa Acampamento do Pecado, que acaba de estrear no Telecine. Eu e Alice, a protagonista da produção, dividíamos a mesma curiosidade em relação ao sexo, e essa internet discada e precária nos abriu um mundo, de descobertas, de possibilidades e de eventuais problemas, nenhum deles relacionados ao ato sexual. Vinte anos depois, adicione o absurdo fenômeno crescente das fake news e o filme apresenta uma narrativa que infelizmente não envelhece, apesar de já lá ser comum e corriqueiro preocupar-se mais com a vida alheia que com a própria.

Atriz, roteirista e diretora, Karen Maine assinou tanto essa versão longa quanto o curta que deu origem ao mesmo, o que já tinha feito também com Obvious Child, essa é no entanto sua estreia na direção. Com uma proposta muito concisa, Maine não tenta revolucionar o cinema com seu primeiro trabalho atrás das câmeras, apenas criar uma via de compreensão que mostre que o mundo como o conhecemos não foi inventado nos últimos cinco anos, e mesmo em 2001 suas condições já eram plenamente conhecida; o ser humano não mede esforços para tirar das suas costas a culpa que sente, nem que para isso precise passar adiante seus pecados.

Acampamento do Pecado
Divulgação

Produzido por Rodrigo Teixeira, o filme de maneira simples discute liberdade sexual, notícias falsas construídas com o intuito de desmoralizar, e abre inúmeras e sutis portas de entendimento do que escolhe debater, sendo essa sua maior qualidade. Seu roteiro não fecha nenhuma discussão sem ampliar as causas e os personagens envolvidos em cada fatia de observação. Não há heróis ou vilões, e nem mesmo a protagonista é tratada como inocente; a todo momento sua postura está na berlinda, e seu desenho se revela cada vez mais complexo, sem paternalizar suas ações nem culpabilizá-la por critérios inerentes à curiosidade juvenil.

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Nada do que é feito de físico em Acampamento do Pecado é imoral, ilegal ou engorda, é apenas o tal “cheiro de espírito juvenil” que Kurt Cobain cantou. Amparados pelo cerceamento religioso, os jovens (e alguns adultos) do filme não conseguem mover sua libido para fora, e por isso criam narrativas que diminuem ou prejudicam seus semelhantes, tal qual o cinema costuma mostrar as cidades pequenas no geral, principalmente as comandadas pela religião. Um encontro de Alice com uma mulher que venceu seu passado de imposição cristã acaba abrindo seus olhos do lugar onde vive, mais emocional que geográfico – livrar-nos do que nos castra é um excelente começo para que o horizonte se faça presente.

Acampamento do Pecado
Divulgação

Da tradição do cinema indie americano, o filme remete a Galera do Mal em sua tentativa de falar sobre religiosidade na adolescência sendo circundada pela maledicência, com sua autora conseguindo criar um painel ligeiro sobre uma fatia da adolescência, aquela das descobertas com o próprio corpo, a descobrir a libido, a entender a própria sexualidade e tentar encaminhar o desejo. O que vemos aqui é uma porção repressora que tem a ver muito com o avanço da extrema direita, ainda que o filme não se localize no presente direto, mas como dito anteriormente, seu deslocamento temporal serve principalmente para que percebamos que o atraso moral não é um tema da atualidade.

Com um recorte destinado à sua protagonista com uma ênfase que não é vista no resto dos personagens, Acampamento do Pecado tem bom argumento, diverte e provoca reflexão e conta com um elenco muito azeitado, incluindo a jovem protagonista Natalia Dyer (de Vozes e Vultos). Sua falta de tratamento do roteiro, no entanto, não deixa o filme alcançar uma posição mais evidente em se tratando de alcance. É, por assim dizer, uma divertida brincadeira cheia de tentações com um assunto muito sério, que é bem difundido e provoca um debate importante.

Um grande momento
Tentando entender essa merda toda

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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