Crítica | Streaming

Limiar

(Limiar, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Coraci Ruiz
  • Roteiro: Luiza Fagá, Coraci Ruiz
  • Duração: 77 minutos

Ela
Ele
Elu

Quando a tristeza de não se sentir bem no próprio corpo se transforma em felicidade por finalmente existir como se imaginou. Quando o amor de uma mãe suplanta o temor. Limiar, filme de Coraci Ruiz sobre o processo de entendimento e da transição do filho dela, Noah, se por um lado é imperfeito e tem suas limitações técnicas resulta em um documentário íntimo, honesto e potente. Eu, como alguém que passa por algo semelhante com meu filho trans não binário, também nunca questionei se era ou não mulher e hoje me vejo incerta de tudo. Foi pela vontade de ver, de escrever sobre e de dialogar acerca de Limiar que eu chamei Daria para a sessão e o assistimos juntes.

“Uma filha que cai muito longe da árvore”

Apoie o Cenas

Coraci nasceu nos anos 70 e eu, nos 80. E é pelo eixo geracional que num primeiro instante ela vai delineando a narrativa desse documentário autobiográfico fluido. Perscruta enquanto ouve a mãe falar da época em que nasceu, de como foi importante romper com a geração anterior e experimentar, inclusive, a liberdade dos afetos. A cineasta vai cosendo ao relato, ao da talking head da mãe, os seus próprios offs que analisam memórias e vão guiando até o nascimento da filha Valentina.

Limiar é uma tentativa de criar pontes de entendimento por meio da corda, do fio, da liga mais sólida que existe: o amor. Coraci num primeiro momento, parece querer ouvir do filho as respostas para suas inquietações. À medida em que o processo transcorre, com a passagem dos anos — registro feito por meio de outra série de talking heads com ele, onde a cineasta vai pontuando as mudanças físicas e buscando alcançar também as emocionais — vemos Noah mais ou menos resoluto. Que a adolescência é o momento definitivo, mas também muito permeado por confusões sobre quem se é, a tendência é que cada vez mais seja, especialmente para os nascidos dos anos 2000 para cá, a hora da auto afirmação.

Limiar
Foto: Divulgação

Desde 2020, Daria me disse não se sentir mais confortável em ser lida como menina. Noah entendeu que também não queria mais representar um papel social. Que abria mão do código só feminino porque no espectro entre os gêneros feminino, neutro e masculino, se sentia mais próximo do masculino. Quando a cineasta-mãe o questiona porque e o que significaria ser menino, ele dirige um olhar profundo para a câmera e diz, com simplicidade que “é muito subjetivo explicar o que é ser menino”.

Coraci narra que sonhou que era menino e o ultrassom acusou uma menina, nasceu menino e ficou indecisa quanto ao nome… A criança ali estaria destinada já a ser genderqueer, genderfluid ou não binária num premonitório sonho ou no vínculo já estabelecido da barriga entre cria e criadora.

Como, na vida cotidiana e no país que mais mata pessoas trans no mundo — foram 175 mortes no ano passado –, se processa uma situação assim?

Que gênero não é uma determinação biológica, felizmente muitas intelectuais como Judith Butler, Guacira Lopes Louro e Teresa de Lauretis têm feito um esforço para produzir conhecimento nesse sentido e ajudar a elucidar as dúvidas decorrentes da construção da transgeneridade. Mais do que estudar sobre, é fundamental apurar a escuta. E, à medida que Limiar se detém mais em Noah, em suas palavras e também nos silêncios, em seus desenhos que guardam algo de fantástico, mas que mostram um pouco de como ele pretende um dia se enxergar e ser amado, o interesse aumenta no dispositivo documental.

A emoção também cresce em quem assiste e sente algo como uma aproximação dos seus anseios. Daria chorou quando passou a sequência sobre as manifestações LGBTQI+ à época do Fora Temer e Coraci acompanhou Noah, não apenas com o corpo presente mas com a câmera. E ela relatou no off que foi a forma que encontrou de demonstrar afeto, a concordância com a necessidade de termos enquanto sociedade, mais liberdade de segurar na mão do filhe e dizer “estamos juntos”. Para todes, inclusive para o irmão caçula dele, Martí, com seus cabelos super compridos, o jeito doce com que toca flauta e sorri perante os ultrapassados binarismos.

Limiar
Foto: Divulgação

“Você não sente o que eu sinto”

Já no aproximar de metade da duração do documental, Coraci manifesta a insegurança perante a decisão de André, naquele momento com 17 anos, de buscar a metamorfose física. Ela fala da problemática em autorizar, pois tem dificuldade em ter certeza de que Noah não vai se arrepender, no que ele arremata: “Problemático pra mim é ser uma coisa que eu não sou, mas uma pessoa cis não tem como entender.”

Limiar é mais um exemplar de filme de autoficção, sim, mas sai do lugar comum, da exaustão que já perpassa esse subgênero do documentário nos últimos anos. Pois que cresce ao vocalizar algo tão simples quanto edificante que é o amor de mãe e filho quando se transmuta entre a dor e o júbilo. E que também funciona como filme-plataforma para acolher incertezas e apontar singelezas sobre a experiência de ser uma pessoa trans.

No final, pouco importa se Noah quer fazer o tratamento hormonal, retirar os seios ou iniciar o processo de acompanhamento para redesignação sexual. O que é inegável aquela altura — já que, especialmente, a cineasta segue uma recorte bem linear no último ato até o clímax — é que André sabe quem é e seria difícil para ela prolongar o sofrimento de quem não suporta o próprio corpo, ter que fingir ser menina com receio da aceitação familiar ou não. Com 17 anos em 2019, ele recebe a permissão por escrito dela, que registra tudo on camera, para começar uma nova etapa.

E acompanhando os créditos de Limiar e as redes sociais do personagem-filho fica a sensação perpétua de que Noah, andrógino, trans não binário, sendo ele mesmo, se encontrou. E que acompanhar alguns momentos do processo de André ajudou Daria a ter certeza de que quer se buscar também.

Um grande momento
A história do nome

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
Botão Voltar ao topo