Crítica | Streaming

Quanto Vale?

Precificando vidas

(What Is Life Worth, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sara Colangelo
  • Roteiro: Max Borenstein
  • Elenco: Michael Keaton, Stanley Tucci, Amy Ryan, Laura Benanti, Tate Donovan, Talia Balsam, Chris Tardio, Zuzanna Szadkowski, Victor Slezak, Alfredo Narciso, E.R. Ruiz, Wass Stevens, Steve Vinovich, Shunori Ramanathan
  • Duração: 118 minutos

O atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ocorrido em 11 de setembro de 2001 e televisionado ao redor do mundo, foi um evento tão traumático que todos têm a lembrança do que estavam fazendo naquele momento. Embora hoje tenha ficado apenas o contexto do terrorismo, e o avião chocando-se contra as torre, à época, o desespero pela vida era o que mais se buscava nas imagens repetidas incessantemente. Milhares de mortos, desaparecidos, feridos, era devastador. Se de um lado havia o sentimento de dor das famílias e amigos e o de compaixão dos espectadores, de outro o que poderia haver de pior. 

A mídia usa da repetição dessas imagens porque sabe o poder empático que elas têm, vidas perdidas são tratadas assim no mundo do jornalismo; os políticos veem a possibilidade de aprovar novas legislações, negociar com os lobistas, declarar uma guerra e aquecer o mercado; e os advogados e escritórios de advocacia surgem dispostos a processar o Estado e as companhias aéreas pensando no valor dos honorários, vidas perdida são tratadas assim pelo direito pois vidas perdidas são vistas tratadas assim pela política. Ou seja, como cifras.

Quanto Vale?, filme que entrou no catálogo da Netflix essa semana, fala sobre a precificação da vida humana, principalmente considerando essas duas últimas categorias profissionais. O governo pressionado por lobistas das companhias aéreas e preocupados com os efeitos econômicos dos processos das famílias das vítimas e os advogados sedentos por tê-las como clientes e entrar na justiça pela indenização. O primeiro busca então uma saída extrajudicial, um fundo governamental de indenização e para a negociação escolhe o especialista no assunto Ken Feinberg, aqui vivido por Michael Keaton. Com sua frieza e competitividade, mas abalado pelos eventos, ele aceitou a tarefa querendo ajudar as pessoas, mas não tinha ideia do que encontraria.

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A transformação do protagonista é uma das linhas de Quanto Vale?, desde sua introspecção e completa inabilidade social até o envolvimento emocional, quando muda completamente de postura. Aí estão dois pontos: a atuação de Keaton, que hoje em dia é muito melhor do que foi no passado, e a direção de Sara Colangelo (Conflitos e Reencontros), que se distingue na condução dos atores de maneira geral. É um trabalho complexo em uma trama com tantos personagens e em um longa que trabalha primordialmente com o impacto dos diálogos. 

Quanto Vale?
© Monika Lek / Netflix

Além de Feinberg, outros dois personagens se destacam na trama: Camille Biros, sua sócia, e Charles Wolf, viúvo que perdeu a esposa no atentado e iniciou um movimento para questionar o fundo criado pelo governo. Ambos se contrapõem explicitamente à identidade do protagonista, principalmente pela empatia. Assim como Keaton, Amy Ryan e Stanley Tucci, respectivamente, estão muito bem em seus papéis.

Variando entre os embates em salas fechadas do congresso, tentativas de comunicações em assembleias, poucos momentos de reflexão e bastante interação com os enlutados, o roteiro de Max Borenstein, apesar de acertar na maioria dos pontos, é repetitivo. Em suas quase duas horas, Quanto Vale? é um filme que segue irregularmente, intrigando sem deixar de cansar. Entre os pontos positivos tem sua abordagem, apesar de ser mais um filme sobre um dos aspectos relacionados ao 11 de setembro, e falar sobre o luto de milhares de famílias, é respeitoso e consegue não ser apelativo.

Colangelo acerta ao levar o pesar para o visual do filme e apostar na fotografia assinada por Pepe Avila del Pino, com quem ela trabalhou em A Professora do Jardim de Infância. O escuro que domina o filme é o luto que dominava o país naquele período e que toma conta do escritório a cada novo depoimento. Ângulos de câmera também mostram que Feinberg vai deixando de ser aquele ser prepotente para se tornar alguém que escuta. 

Ao falar sobre o valor da vida das pessoas e a frieza com que o tema é tratado no meio jurídico, Quanto Vale? poderia ter optado pelo caminho sempre mais fácil do sentimentalismo e da apelação, mas Colangelo e Borestein preferem ir por outro lado. Tropeçam em facilidades, nas repetições e nas próprias verdades sobre seus personagens, mas conseguem fazer um filme que chega onde precisava chegar e que passa a sua mensagem.

Um grande momento
Conhecendo Karen

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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