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Adeus, Idiotas

Perdido entre dois caminhos

(Adieu les cons, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Albert Dupontel
  • Roteiro: Albert Dupontel, Marcia Romano, Xavier Nemo
  • Elenco: Virginie Efira, Albert Dupontel, Nicolas Marié, Jackie Berroyer, Philippe Uchan, Bastien Ughetto, Marilou Aussilloux
  • Duração: 87 minutos

Exatamente um ano depois de sua noite de consagração no César ano passado, Adeus, Idiotas chega aos cinemas brasileiros com os 6 troféus do Oscar francês, e como é raro ver uma comédia se consagrar em uma premiação, na nacionalidade que for. Dito isso, o novo longa do multiplamente talentoso Albert Dupontel trás consigo uma carga de decepção, independente de que gênero do qual faça parte, por não corresponder ao que seu autor coloque sobre seus ombros, uma aura meio pretensiosa de que estamos vendo algo substancioso e elevado, quando na verdade o filme não passa de uma levíssima sessão onde “os oprimidos serão exaltados” – ainda que somente por eles mesmos.

Dupontel tem uma relação bem próxima com a Academia francesa, seu anterior Nos Vemos no Paraíso, já tinha sido consagrado por lá, e esse novo se sai ainda melhor, em um ano que não foi necessariamente feliz para o cinema francês. Se saiu melhor um autor/ator que mostra constantemente que entende de estética, de narrativa e de direção de atores, mas aqui necessariamente tudo alcança o mediano, e parece que a intenção era no intuito desse lugar de menor alcance mesmo. Um filme modesto, sem proporções muito grandiloquentes; apenas um passatempo bem feito, com alguma elegância e senso de humor além do esperado.

Adeus, Idiotas
Divulgação

Na tela, uma corrida contra o tempo une dois personagens, em um espaço de pouco mais de 48 horas. Suze quer encontrar o filho que foi colocado para adoção à sua revelia; o sr. Cuchas quer provar sua inocência numa tentativa de suicidio que quase terminou em assassinato. Um pode ajudar o outro, e com isso se unem ao terceiro vértice, o sr. Blin, numa jornada de enjeitados sociais, mas nunca sem nos aproximar de verdade dessas três figuras, que planam avulsas sobre uma narrativa que parece só se interessar em promover a ação entre eles, e não conhecer suas realidades. É uma corrida desenfreada que, mesmo essa fatia, não é muito bem delineada.

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Há sem dúvida um apreço pela ação, mas o filme se assenta na comédia melancólica, mesmo aparentando que sua estrutura tinha mais conexão por um universo mais rasgado do humor, que elevaria seu resultado final. Essa pegada ainda ajudaria nesse tom mais distanciado que o filme toma de seus personagens, cuja postura não conseguimos acessar porque a todo tempo o roteiro parece nos pedir para que conheçamos mais desse trio – ou dessa dupla, ao menos. Com o envolvimento emocional que se dá entre eles, o filme se mostra insuficiente, para um lado e para o outro, tanto em fornecer situações cômicas quanto em prover seus atores com mais detalhes de dramaturgia.

Adeus, Idiotas
Divulgação

Exista uma constante necessidade de se mostrar artístico, em utilizar um excesso de muletas cinematográfica em decisões duvidosas de fotografia e montagem, e ao contrário das incursões anteriores de Dupontel como autor, Adeus, Idiotas não justifica suas intenções, parecendo na maioria das vezes com uma brincadeira que se levou a sério demais. Seu coração reside no premiado Nicolas Marié, ator que compreende seu lugar e que arrisca o humor físico por diversas vezes, encontrando um equilíbrio que a produção nem parece tentar. Sua dedicação a um personagem que surge como uma escada e vai roubando a cena a cada vez que aparece é o ponto alto da produção.

O próprio Dupontel e a musa do momento Virginie Efira (de Benedetta), apesar de estarem muito bem em suas configurações, não são capazes de dar ao filme o que Marié dá – alma e sensibilidade. Adeus, Idiotas, acaba se valendo de momentos elevados, e que nem chegam a ser tantos assim… mas que ajudam essa produção ágil em ritmo, coisa que de fato não lhe falta. Com um desfecho muito bonito que merecia um estofo digno, que coroasse um trabalho de maior efervescência, o que fica na memória após a sessão são as inserções do Sr. Blin, e como um filme com tanto potencial não soube arrumar seus entremeios para que o todo se realçasse.

Um grande momento
Sr. Blin no corredor, em frente à casa

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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