Crítica | Festival

Aftersun

Sob o mesmo céu

(Aftersun, RUN, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Charlotte Wells
  • Roteiro: Charlotte Wells
  • Elenco: Paul Mescal, Frankie Corio, Celia Rowlson-Hall, Brooklyn Toulson, Harry Perdios, Ethan Smith, Kayleigh Coleman, Ruby Thompson, Sally Messham
  • Duração: 95 minutos

Aqueles momentos que nos pegam de vez em quando: como começar esse texto? Isso geralmente acontece nas ocasiões onde um pedaço da gente fica na sala de cinema, como hoje em Aftersun. Porque, na verdade, o que parece ser mais um daqueles filmes sobre ‘o grande nada’ que acabam ficando em todas as listas respeitáveis de melhores do ano – e que eventualmente merecem esse lugar mesmo, inclusive por ser sobre ‘o grande nada’ – é uma reflexão sobre o tempo. E não apenas o tempo da maneira mais ordinária do mundo, a passagem dele, ou ele enquanto força motora e solitária, aniquiladora até; o tempo, aqui personagem oculto que se revela aos poucos, é literalmente o vilão da história. E isso nem é de fácil compreensão – eu literalmente imagino os medíocres vídeos de ‘final explicado’. 

Na parte mais rasa da narrativa, estão Calum e Sophie, pai e filha que parecem irmãos. Ele é muito jovem, e ela já é quase uma mocinha entrando na adolescência. Como parece ser um hábito, ela está passando as férias com ele, e a Turquia nem parece ser a primeira vez que virou destino. Calum já não é mais casado com a mãe de Sophie, e foi embora da Escócia natal; ele não se sente mais à vontade lá nem remotamente. Na verdade, Calum não se sente mais à vontade, ponto. Com o máximo de discrição possível, ele tenta não arranhar as férias com a filha que não vê faz tempo e deixa os registros fugidios da câmera captar seu crescente incômodo, o peso que cresce se avolumando em todo o corpo. Ele torceu o pulso, mas na verdade toda sua massa parece pedir partida da existência.

O que a estreia de Charlotte Wells proporciona é mais do que um projeto cinematográfico (mas nunca podemos esquecer que também o é), é um mosaico do tempo passado, aquele que nos escapou por entre os dedos durante as idades, e que está sempre sendo reconfigurado através de lembranças, fluidas, forjadas ou programadas. Aftersun abre com um recurso até batido, onde imagens de arquivo são rebobinadas em cena aberta para que conheçamos um estado de rememoração. Em cena, tudo existe, o presente e o passado, e ambos têm pesos iguais para formar quem somos. E quem somos geralmente é um acúmulo crescente de experiências, com eventos, com pessoas, com lugares, com o tempo. E de como cada um desses elementos, ao misturar-se, formam imagens desconexas onde nós estamos, mas o outro nem sempre está. 

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Wells é feliz ao investigar esse rápido lampejo de excitação perdido em fitas, onde os poros dos atores, essa aproximação incômoda, aos poucos vai dando espaço físico para com a câmera, e passamos a observar o quadro além da impressão. E a impressão é de que tudo é fulgurante e vívido, mas não precisa escavar muito para percebermos a humanidade naturalista que embaça o sonho. Com uma pergunta muito simples (“porque você e mamãe se dizem eu te amo?”), Sophie esmiuça, sem saber, uma gama de fatores preponderantes para desarmar um adulto, de maneira muito coloquial e infantil mesmo. Mas estão nesses diálogos, ora nonsenses e ora surpreendentemente reflexivos, que vamos assentando ideia em torno do que vemos – um homem em estado latente de descompasso com seu tempo, em qualquer que seja o tempo. 

Aftersun
Cortesia Mostra SP

Jovem demais pra ser velho e velho demais pra ser jovem, Calum não se encontrou no espaço onde foi inserido, em qualquer que seja a ocasião. Foi arremessado em uma paternidade não planejada, dentro de uma existência que também não era; aos 30 anos, uma conta que ele nem fazia ideia ter, começa a ser cobrada, e ele está literalmente ‘dando defeito’. Resta saber até quando sua expressão de dor será mitigada para o benefício do exterior, afetando apenas ele mesmo. No tempo presente de Aftersun, Calum não está de outra forma que não nas imagens pretéritas; seu retorno ao começo sugere o abraço ao que ele nunca resolveu, ou uma identificação com o fim, ainda que prematura. Não há uma resposta certa para a falta de habilidade no viver e no amadurecer, mas há a escolha de seguir tentando uma coisa e outra. 

Nas mãos de Sophie, o amadurecimento já chegou. Em cena, ela sai de uma figura meio moleca para o abraço a um feminino, em trocas de figurinos, em campos de organização, na primeira experiência romântico-amorosa-sei-lá-o-quê-foi-isso. Já seu pai, se ‘surpreende por ter conseguido chegar aos 30’, está já muito cansado, encontrando com frequência seu tempo outro batendo na porta e cobrando uma resolução investigativa: quem você ainda quer ser, Calum? Existe espaço ainda para pensar, para escolher e até (porquê não?) para jogar tudo pro alto e começar mais uma vez. O tormento de Calum inclui-se também no pai que ele não é, no que não se sente capaz de ser, e no que efetivamente não consegue ser. 

Aftersun só compreende esse tanto de análise porque conta com a parceria de Wells com uma equipe técnica jovem impressionante, desde a montagem de Blair McClendon (de A Assistente) até a fotografia do quase estreante Gregory Oke. As escolhas musicais do filme são absolutamente funcionais para a narrativa, como a ‘Losing my Religion’ do R.E.M. até o “clássico” pop ‘Tubthumping’ (aquela do ‘I get knocked down’), mas nada nos prepara para a sequência final do filme, cuja escolha musical eu vou deixar a cargo do espectador. A resposta é tão crucial que, se nada tiver sido esclarecido até ali, essa música específica revela o filme, e não apenas seu título, mas cada frase da composição. Parece um caso de filme que girou em torno de uma canção que tantos já imortalizaram, para construir sua linha narrativa, como Aimee Mann em Magnólia.

Não existiria arrebatamento em Aftersun, no entanto, sem a parceria entre Paul Mescal e Frankie Corio. O jovem ator revelado na minissérie Normal People é uma das grandes revelações britânicas recentes, e cada fração de segundo do seu rosto justifica todo o estardalhaço em torno dele na atualidade. Já Corio está obviamente em seu primeiro trabalho, e não podemos perdê-la de vista – sua naturalidade é um deslumbre, assim como era Brooklyn Prince em Projeto Flórida, projeto que exala a mesma atmosfera a respeito do fim de uma era aqui. Em Aftersun, no entanto, não há a sensação de fim da inocência e do começo de um outro tempo como no filme de Sean Baker; aqui, há uma melancolia de que o tempo já chegou, não foi isso tudo que prometeram, nos perdemos e não há mais volta. 

Poderia ser e eventualmente é, apenas um filme de amor, e isso é demasiadamente bonito enquanto escolha estética-narrativa. Mas o tempo não linear, ele só existe para que o acesso ao passado não se perca, ou ele também é uma porta para se perder em um tempo que não volta mais? Calum está em um tempo outro, e Sophie busca por esse homem que ficou em um outro mundo, chamado passado. Belíssimo é pouco.

Um grande momento
Pós-karaokê

[46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Ric
Ric
06/11/2022 19:53

Excelente crítica, expressiva e sensível.

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