Crítica | Streaming

A Assistente

Incorporada à estrutura

(The Assistant, EUA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Kitty Green
  • Roteiro: Kitty Green
  • Elenco: Julia Garner, Jon Orsini, Noah Robbins, Dagmara Dominczyk, Alexander Chaplin, Bregje Heinen, Matthew Macfadyen
  • Duração: 87 minutos

Nos anos 2010 a realidade das mulheres em ambientes profissionais foi escancarada, movimentos como o #MeToo trouxeram a público abusos e de assédios sofridos na indústria cinematográfica, nas redações dos jornais, nos bancos internacionais e em qualquer outro ambiente onde haja qualquer tipo de relação de poder. Nada que seja novidade para alguém do sexo feminino desde o seu primeiro dia de trabalho – não importa a área, a idade ou a região -, mas agora com a consciência e a coragem de falar. A Assistente não é nada óbvio, pelo contrário, mergulha no que há por trás da prática para alcançar o tema e perturbar com sua frieza e minimalismo.

Dirigido pela australiana Kitty Green, que chamou a atenção do mundo com as contradições de Ukraine Is Not a Brothel, documentário sobre o grupo feminista Femen, A Assistente está interessado no ambiente predatório do audiovisual, recheado de figuras desprezíveis como o já condenado Harvey Weinstein. A realizadora quer atingir seu ponto não dando espaço ao predador, mas criando a conexão entre o espectador e alguém que acompanha todo o processo. O desenvolvimento é elaborado: por um dia inteiro, acompanhamos Jane, secretária de um super produtor de cinema, vendo não só sua dedicação, mas toda a pressão e o conflito que a relação estabelecida – com o trabalho e o chefe – trazem.

Julia Garner em A Assistente

Mais do que isso, Green inteligentemente constrói a trama de maneira acurada sobre todos os pilares patriarcais, que definem o espaço, as atividades e o comportamento da mulher. Olhar para Jane, naquela situação, é como olhar para alguém dos anos 1950, ela é uma daquelas secretárias que se parecem com as donas de casa leitoras das dicas da Revista Cruzeiro. Entre a distribuição de tabelas, telefones atendidos e marcações de reuniões, a diretora chama nossa atenção nos detalhes: o puxar da caneca esquecida pela colega na pia, a nota da lavanderia, as luvas para limpar o sofá.

A relação abusiva se concretiza sem que haja uma reação, dela ou de qualquer outra pessoa. Pelo contrário, o ambiente, contaminado, não repudia e nem dá de ombros, faz chacota. Em um universo onde a presença nociva do assediador sem rosto já oprime, essas outras figuras também abusadas chegam para transtornar. Mas é mesmo essa a intenção de A Assistente, incomodar. Quando Green opta pela frieza dos espaços, pela falta de cor, pela ausência de diálogos – esse silêncio perturbador e cheio de significado -, ela torna a situação evidente e traz o desassossego.

Julia Garner e Matthew Macfadyen em A Assistente

Green já se mostrara habilidosa nessa busca de sentimentos através da identificação que utiliza elementos e o espaço quando chegou fazendo tudo diferente no universo true crime com o documentário Quem É JonBenét?. Em A Assistente, usando exclusivamente a ficção (se é que isso existe), ela vai ainda mais fundo. Depois de preparar o terreno com a espera silenciosa e angustiada, pontuada por tensões e agressões “rápidas”, ela nos atira, agora de maneira até óbvia, ao ponto onde gostaria de chegar desde quando vemos Jane sair de Astoria ainda de madrugada.

Detendo o poder e certo da impunidade, o homem se sente deus entre os homens.

Platão

A conexão com a personagem, esse compartilhar de experiências, deve muito à entrega de Julia Garner, atriz que cada vez mais confirma sua excelência em papéis variados como em A Fita Azul, Somos o que Somos e Aprendendo com a Vovó. Seu olhar assustado e a postura insegura compõem a aura de medo e poder que reina no ambiente e fazem a contraposição perfeita com os homens do lugar que se relacionam de maneira diversa com tudo o que ali vivenciam, sejam eles seus colegas de sala, aquele que representa o chefe em suas ausências, o cara do compliance ou os que participam das reuniões. “Fique tranquila, você não faz o tipo dele”, “Se eu fosse você, não sentaria nesse sofá”.

É nesse espaço misógino e repugnante onde está Jane que estão centenas, milhares de outras mulheres em todas as partes do mundo, não importa a profissão. Green sabe, todas nós sabemos, ainda que nem sempre tenhamos a real noção de o quanto ainda trazemos da carcomida estrutura dentro de nós. Aqui, isso vem construído com muita precisão, mostrando que o patriarcado está disfarçado para quem vivencia, mas é muito evidente para quem olha de fora. Assim é na vida e eis aqui uma excelente maneira de se fazer acordar.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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