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Pieces of a Woman

Texturizar a dor

(Pieces of a Woman, CAN, HUN, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Kornél Mundruczó
  • Roteiro: Ansuman Bhagat, Kata Wéber
  • Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Sarah Snook, Molly Parker
  • Duração: 126 minutos

Um dia após assistir a um filme cujo emocional não é texturizado pelo roteiro e as motivações dos personagens acabam soando vazias apesar do excesso de verbalização, a tendência de Kornél Mundruczó (de White God e Lua de Júpiter) em aprofundar suas imagens a ponto de tornar táteis ao espectador não apenas ações, mas sentimentos e emoções, acabam revelando em Pieces of a Woman muito mais do que o verbo permite. Ao menos em duas sequências, gemidos e suspiros provocam no espectador muito mais do que discursos complexos jamais compreenderiam ou alcançariam; não são apenas os corpos que estão à altura do toque, mas suas motivações.

Essa texturização do abstrato não é novidade na forma como o diretor húngaro concebe suas imagens. Em Delta, uma comunidade é assaltada pela intrusão da lente do cineasta quase como a ler seus espaços geográficos, e que foi posteriormente traduzindo o autor e sua obra. Sua capacidade de aproximação do objeto filmado não o aproxima dos irmãos Dardenne como poderia parecer, porque Mundruczó não quer necessariamente ser testemunha o eventos de seus personagens tão de perto a ponto de participar dos mesmos; o interesse é reproduzir em quem assiste a experiência emocional pelo qual tais movimentos reverberam.

Pieces of a Woman

Acompanhar o gradativo desmoronamento de Martha e Sean diante de uma tragédia inconcebível é mais uma forma do cineasta em estabelecer contato com profundas camadas de conexão humana, aqui em contato máximo com a dor de maneira tão explícita que o filme a sublinha da sobriedade mais adequada possível, garantindo a sua primeira produção falada em inglês um tratamento completamente diferenciado ao que o cinema americano costuma empregar a seus dramas, mesmo os mais pungentes e interiorizados. Fruto da cultura onde foi criado, o cineasta não avassala seu filme com o poço sem fundo do sofrimento humano mesmo tratando sobre exatamente isso; também não impinge ao filme e a sociedade que filma uma versão alternativa de si mesma – há sofrimento ali, o que não há é orgulho de tal, como estamos acostumados a assistir.

Trabalhando com Benjamin Loeb, o fotógrafo de Mandy, Mundruczó alcança não apenas o melhor tratamento para seus planos-sequências, mas as melhores contextualizações para o posicionamento de seu material imagético, construindo planos que são invadidos pela profunda escuridão na qual seus personagens estão reféns, como a exteriorizar sua dor através das lentes e das cores, além de capacitar suas imagens de uma melancolia que lhe confere personalidade estética e um tratamento gráfico que também ele afasta o produto final de mais uma obra padrão sobre o luto e as consequência a curto e longo prazo da perda.

Aos poucos, o roteiro de Kata Weber desenvolve a disseminação das características de Martha e Sean como casal para se debruçar nos indivíduos particulares, até chegar a se concentrar exclusivamente na protagonista e mostrar a eterna diferença entre quem vai e quem fica, não apenas geograficamente falando. O trabalho de Vanessa Kirby é o mais difícil do elenco por ser ela a catalisadora da dor internalizada, não-exposta, e acusada por tal. Como o diretor sempre a encontra em movimento, Martha em constância se encontra realizando ações que se deslocam do que ela está sentindo, quase em oposição, mostrando uma atriz que lida com essa dualidade à perfeição.

Coadjuvantes a ela, Shia LaBeouf e Ellen Burstyn impressionam em suas entregas tão díspares a Kirby. Ele é a externalização da dor, que clama desavergonhadamente por uma perda que o destruiu, transformando-o (ou mostrando o real?) num outro ser humano em sua exposição explícita do ato de sofrer e gritar por ajuda. Já a veterana explora com sutileza o que o roteiro desenhou pra ela, seus conflitos com filha e genro, sua gana por justiça e a recôndita dor que a forjou como ela é. Ambos dão suporte a Kirby e tensionam o filme até o limite, no conceito narrativo.

Pieces of a Woman

Lidando com uma perda coletiva para plano a plano concentrar-se no quão feminino é essa ausência, Mundruczó contou literalmente com o olhar de Kata na concepção do que explorar, em que camada aprofundar, sobre qual aspecto se debruçar, onde aproximar e onde afastar, terminando por entregar uma obra que ressoa de maneira mais definitiva exatamente no femnino, para compreender os processos sobre o qual ele mais filma que comenta, e com essa parceria estabelecer um contato mais aproximado do alvo. Não à toa Pieces of a Woman abre sugerindo a coautoria de suas sensibilidades conjuntas.

Um grande momento
O almoço

Ver “Pieces of a Woman” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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