Crítica | Cinema

Legado Explosivo

Apenas metade do gás

(Legado Explosivo, EUA, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Mark Williams
  • Roteiro: Steve Allrich, Mark Williams
  • Elenco: Liam Neeson, Kate Walsh, Jai Courtney, Jeffrey Donovan, Anthony Ramos, Robert Patrick, Tazzie, Jasmine Cephas Jones
  • Duração: 99 minutos
  • Nota:

Desde que o Bryan Mills da série Busca Implacável deu a Liam Neeson uma vertente inesperada na sua carreira e um renascimento como herói de ação, a rota desse irlandês de quase 70 anos sofreu um revés e se metamorfoseou. Antes um ator de prestígio repleto de indicações a prêmios por longas como A Lista de Schindler, Michael Collins, Kinsey e muitos outros, Neeson não perdeu seu talento, sua capacidade de ainda estar em filmes de gabarito (vide o Silêncio de Martin Scorsese) e renovou o ‘guarda-roupa’ como uma solução de talento inconteste para rechear filmes de ação ligeiramente inconsequentes, o que nos leva a esse Legado Explosivo, que não necessariamente honra a trajetória de action hero recente do ator.

Aprimorado pela fantástica parceria que traçou com Jaume Collet-Serra em filmes como Sem Escalas e Noite sem Fim, Neeson acabou firmando no imaginário recente essa imagem de sujeito infalível envolto em situações fora de seu controle que no entanto é a única pessoa que ninguém gostaria de encontrar em caso de delito. Mark Williams, um produtor recém alçado a carreira de diretor, não tem o talento necessário pra escrever ou conduzir o filme, mas atende as duas cadeiras entregando um produto de rápido consumo, mas que não contém a inquietação e o rebuscamento vistos nas produções que o ator estrela, se dando por satisfeito em entreter diante de um sem número de situações inexplicavelmente grosseiras.

Liam Neeson em Legado Explosivo

Se não é absolutamente desprovido de charme, que conduziria o filme para um degrau superior ao apresentado, Legado Explosivo deixa escapar inúmeros desdobramentos que fariam o material vibrar. Ainda que a sacada de colocar o ator acostumado ao lado certo da lei em calçada oposta já tenha sido apresentada muito recentemente em As Viúvas, o que esse seu novo sucesso propõe é um personagem arrependido pelos mal feitos, em busca de redenção. A forma como amarra as muitas inclinações de sua narrativa, que se cerca de alguns solavancos para avançar e justificar ações inexplicáveis, tornam o programa em um passatempo do qual não podemos cobrar nenhuma relevância significativa.

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Com pouca experiência criativa, Williams filma o essencial para situar sua ação sem criar um vínculo emocional entre seu personagem e o espectador. Antes que se acuse o crítico de cobrar estofo a um produto essencialmente descartável, é bom deixar claro que a motivação apresentada pelo roteiro para o plot inicial é o tal do mais nobre dos sentimentos, o amor. Mas ora bolas, como comprar essa justificativa apresentada se o casal protagonista não tem laços apresentados, apenas as afirmativas de seu tomo masculino em verbalização vã, que nada representa de simbólico para a imagem? Resta ao público anuir suas declarações, sem nunca ter provas delas, no que aí se constitui uma falta grave – vide o já citado As Viúvas, uma produção onde nunca duvidamos do que sentem Neeson e Viola Davis.

Legado Explosivo

Sem desenhar sua ação com alguma substância que vá além do lazer raso, a direção se polvilha de burocracia e reveste sua narrativa de um sem número de desenvolvimentos descabidos, que vão de provas de crimes que passeiam por mãos inúmeras, a ferimentos evidentes que passam despercebidos por personagens e atitudes (positivas e negativas) que nunca são muito bem desenvolvidas, deixando todo o processo muito vago e despretensioso demais. Se você não cobrar muita habilidade do roteiro de Legado Explosivo, a experiência com a produção será mais prazerosa, ainda que vazia. Quando olhamos os personagens como um todo e vimos o que eles tinham a oferecer e o tanto que foram desperdiçados, a sensação de frustração é grande.

No bom elenco reunido, é Jeffrey Donovan, além de Neeson, quem consegue se posicionar melhor em cena, porém há pouco a fazer, para qualquer um dos envolvidos que não se posicionar nas marcações exigidas, dizer suas falas e executar suas ações. Ainda que alguma estranheza acabe sendo extraída de tantos atropelos e essas mesmas acabem soando como positivas em determinados momentos, Legado Explosivo não é de uma cepa criativa de um gênero tão explorado no cinema americano, o thriller de ação, especialmente os que seu protagonista tem acostumado a nos entregar, sendo que aqui seu principal desafio é vencer a irrelevância.

Um grande momento
Carros enganchados

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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