Crítica | Streaming

Amor²

Potencial mediano inalcançado

(Milosc do kwadratu, POL, 2021)

  • Gênero: Comédia, Romance
  • Direção: Filip Zylber
  • Roteiro: Wiktor Piatkowski, Marzanna Polit
  • Elenco: Adrianna Chlebicka, Mateusz Banasiuk, Agnieszka Zulewska, Krzysztof Czeczot, Miroslaw Baka, Tomasz Karolak, Bartlomiej Kotschedoff, Jacek Knap, Anna Smolowik
  • Duração: 133 minutos
  • Nota:

Alguns filmes são desprovidos de propósito, em outros sentimos falta de clareza, enquanto ainda há um grupo de filmes onde faltam às vezes um conceito, e em outras uma sensibilidade. Em Amor², por exemplo, falta charme e poucas coisas são mais letais a uma comédia romântica que esse “it” específico. Lógico, poderia faltar química ao casal protagonista, poderia faltar inteligência ou mesmo talento que amarrasse os elementos unitários. Ao invés desses problemas mais comuns (que necessariamente não são de boa procedência aqui), o que salta mais aos olhos em mais um sucesso polonês da Netflix é o quanto falta encanto e/ou interesse sua narrativa provoca.

Não podemos negar que haja uma produção maciça vinda da Polônia a invadir o canal de streaming, de cara lembramos de Destemida, Morte às Seis da Tarde e o mais infame hit de 2020, 365 Dias, que há 8 meses faz inúmeros assinantes cederem à curiosidade em torno de seu conteúdo. São filmes absolutamente diferentes entre si, mas impressiona a constância com que esses conseguem visibilidade que os transporte para o boca a boca mundial, mesmo que nenhum deles seja exatamente relevante – e na verdade todos eles parecem preocupados em ocupar uma fatia do mercado, e passar para o produto seguinte.

Amor²

O que salta aos olhos em uma rápida procura no site Internet Movie Database (o famoso IMDB) é que sua duração por lá ultrapassa as 2 h e 10 m, enquanto a versão disponibilizada na plataforma tem meia hora a menos. Não creio que muito pudesse ser alcançado em matéria de sedução do espectador, mas com certeza saber dessa diferença ajuda a explicar porque a narrativa vista é tão corrida, dispersa e repleta de saltos narrativos que poderiam ser classificados como “elipses espertas”, quando na verdade incomodam muito passear por quase todas as informações dadas como se estivéssemos assistindo a um resumo, e descobrir isso somente ao escrever a crítica faz vários incômodos se justificarem, mas não se acomodarem.

Como a versão oferecida ao Brasil tem uma diferença muito grande de duração para a original, até a análise fica comprometida, tendo em vista que uma sub trama inteira pode ter sido abortada. Ainda assim, o prognóstico não é positivo tendo em vista o material apresentado, onde rasgos de bom humor às vezes capitalizam as atenções, ao passo que no momento seguinte tudo parece seguir para a narrativa decalcada de inúmeras telenovelas brasileiras, onde as explicações também nunca foram o forte: a mocinha bonita que se disfarça para assumir uma outra personalidade, mais exuberante e nunca mais bela, que encara uma relação passional com um cara que tem uma espécie de dupla identidade.

Amor²

Nada faz muito sentido não apenas em questões lógicas, mas não se sustentam de forma alguma narrativamente, e estamos falando de inúmeras pontas: o pai da protagonista tem uma dívida com homens que parecem mafiosos e o perseguem; um mecânico parece apaixonado pela mocinha mas também a chantageia sem qualquer motivo aparente; uma produtora tem um cão reprodutor; um diretor de escola implica com a mocinha, que é professora; a cunhada do protagonista foi embora e largou seu irmão e sua sobrinha; um casal com três filhos parece estar esperando um quarto – ou não, o filme não faz questão de explicar nenhuma dessas coisas. Ou será que a meia hora inexistente justifica isso tudo e muito mais?

O casal principal vivido por Adrianna Chlebicka e Mateusz Banasiuk fazem o que podem para segurar as pontas do interesse do espectador, seja ele polonês ou brasileiro, mas Amor² não parece fazer muita questão em convidá-lo a embarcar e torcer pela dupla, que de fato tem carisma na tela e boa química conjunta, seja em qual das suas versões de personagens forem. Até por essa enxugada no material, fica a dúvida dos motivos pelos quais a produção está fazendo tanto sucesso por aqui, já que não falta material na Netflix com a narrativa minimamente alinhavada, sem a correria de “último capítulo de novela” do clímax e com algum charme, quase inexistente aqui.

Um grande momento
História para dormir

Ver “Amor²” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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