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Aos Nossos Filhos

(Aos Nossos Filhos, BRA, 2019)
Drama
Direção: Maria de Medeiros
Elenco: Marieta Severo, Ricardo Pereira, José de Abreu, Claudio Lins, Aldri Anunciação, Laura Castro, Marta Nobrega
Roteiro: Laura Castro (peça), Maria de Medeiros
Duração: 107 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Devemos perdoar também o preconceito, a discriminação, a homofobia, a exploração financeira, a irresponsabilidade, o elitismo, a falta de noção, a deslealdade? Perdoar os efeitos especiais, a mise-en-scène, os diálogos inacreditáveis?

Exige demais do espectador o longa-metragem Aos Nossos Filhos, de Maria de Medeiros, a partir de peça teatral de Laura Castro. Exige principalmente enorme paciência para aguentar tanta gente insuportável e sem qualidades disputando a posição de maior vítima.

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

É Vera Sontag (Marieta Severo) negando a crianças soropositivas de sua ONG numa favela carioca a oportunidade de ter uma família por exigências absurdas como heteronormatividade, “família tradicional” e alto nível intelectual de acordo com seus parâmetros, tornando-os reféns de ideais particulares de família adotiva relacionados ao que ela sonhava para o próprio filho. E ainda enche a boca para dizer que faz revolução onde pode.

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

Não há um respiro de “realidade” no longa-metragem. Nada convence. O que chega mais perto é o trauma de Vera por causa das experiências enquanto presa política nos porões da ditadura militar, mas os animais criados digitalmente em seus pesadelos ofuscam até a competente atuação de Severo, baseada em constante expressão de desgosto e amargura. Temas espinhosos e férteis, como adoção vs. técnicas caríssimas de reprodução assistida e rancorosos conflitos familiares, correm na direção de soluções imediatas. Gays são vilanizados e punidos, Antônio Pitanga é objeto decorativo e a impressão é de que sofrimentos do passado desculpam qualquer coisa, mesmo as mais brutais ignorâncias. Perigoso, não?

Aos Nossos Filhos deixará aos nossos filhos um retrato da ridicularidade do privilégio branco endinheirado que não tem vergonha de afirmar estar na pior mesmo vivendo num casarão e dedicando-se exclusivamente ao estudo para concurso público. Pessoas que acreditam que um menino negro já crescido seria capaz de tirar a roupa e se jogar num lago de jardim de menos de 30 centímetros de profundidade confundindo-o com uma piscina. Pessoas cuja sensação de blindagem considera verossímil descer o morro correndo passando do lado de dezenas de militares durante intensa troca de tiros. Pessoas que têm a ilusão de que esta é apenas uma inspiradora história de superação. Que os dias assim cheguem logo ao fim.

Um Grande Momento:
A despedida do fantasma.

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[Festival do Rio 2019]

Taiani Mendes

Crítica de cinema, escritora, poeta de quinta, roteirista e estudante de História da Arte. Também é carioca, tricolor e muito viciada em filmes e algumas séries dos anos 90/00.
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