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Bala Perdida

(Balle perdue, FRA, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Guillaume Pierret
  • Roteiro: Guillaume Pierret, Alban Lenoir, Kamel Guemra
  • Elenco: Alban Lenoir, Nicolas Duvauchelle, Ramzy Bedia, Stéfi Celma, Rod Paradot, Sébastien Lalanne, Arthur Aspaturian, Patrick Médioni, Alexandre Philip
  • Duração: 114 minutos
  • Nota:

O estreante Guillaume Pierret não tenta inventar a roda em Bala Perdida, nova estreia da Netflix feita sob medida para quem procura emoções baratas e descompromissadas. Com pinta de piloto de série (ou ao menos almejando muito construir uma saga cinematográfica), o filme não enrola nada e é muito sucinto e honesto em sua premissa, preto no branco – embora finja umas “surpresas” narrativas, que na verdade só permitem que o filme tenha ao menos a já curta duração de 1 h e meia. Vindo de alguns poucos episódios de séries e um curta, Pierret tem aqui um cartão de visitas modesto, porém eficiente.

O filme narra a luta contra o tempo de um mecânico condenado, que trabalha para a divisão antidrogas da polícia francesa, ao assistir a execução de um amigo pela fatia corrupta dessa mesma divisão. Acusado por esse assassinato, Lino tem uma prova de sua inocência, mas precisará de aliados para encontrar a bala perdida do título, presa no carro da vítima. Com ação e tensão ininterruptas, essa narrativa tão simples quanto direta não tenta criar complexidade onde não existe – trata-se de um thriller policial recomendado quase exclusivamente para os amantes do gênero que não sejam exigentes.

O protagonista Alban Lenoir colabora no roteiro de Pierret junto a Kamel Guemra, e a narrativa se desenvolve rápido e sem sobressaltos, porém, há que se perdoar a quantidade alta de suspensão da descrença que o filme arremessa na nossa direção caso queira ter uma diversão sem aborrecimento. Inúmeras facilitações e conveniências se acumulam durante a projeção (como a situação nunca explicada a contento sobre o porquê o grupo de bandidos mantém uma prova contra si intacta) e empurram o filme em uma direção difícil de engolir, porém como diversão ligeira Bala Perdida cumpre sua função de fazer o tempo passar sem irritar – muito.

Essas mesmas facilidades do roteiro criam uma atmosfera meio irreal vez por outra (o fato do protagonista ser tão “inofensivo” e de suas ações nunca terminarem em violência, por exemplo), mas é só lembrarmos o quanto sem compromisso é esse passatempo, que essas resoluções ficam mais fáceis de engolir. Um ponto curioso da narrativa é o fato de que Lino constrói carcaças indestrutíveis para carros; mesmo sabendo que essa ideia fica pela metade no quesito aproveitamento, ainda assim é minimamente divertido ver carros policiais que se chocam propositadamente pelas ruas da cidade.

Bala Perdida (Balle perdue)

O filme ainda mantém como cartas na manga o desenvolvimento sobre alguns personagens, uns que não levam a lugar nenhum e só servem para confundir, outro que fica na metade do caminho da construção, e ao menos uma cujas lacunas só beneficiam a si, sua história e ao filme. Julia, Marco e Quentin (Rod Paradot, merecido vencedor do César por De Cabeça Erguida – ainda um ator muito promissor) mereciam relevos de verdade, como é dado a Lino. O Areski de Nicolas Duvauchelle (de Polissia) também tem muitas particularidades não trabalhadas, e sua última cena revela uma realidade nunca antes mencionada, e que parece deslocada àquela altura.

Pra terminar, visualmente Bala Perdida não tem qualquer capricho relevante, a não ser sua eficiência nas cenas automobilísticas, que também elas nada têm de arrebatador, apenas servindo para manter o ritmo azeitado. Quando o final praticamente define uma predileção em continuar contando novas camadas dessa história, nos sentimos traídos pelo trato feito a favor do descompromisso. Então tudo era uma porta aberta para construir uma cinessérie, Pierret? Bom, se o jogo de gato e rato está só começando, vamos torcer para que no próximo capítulo seu diretor apresente alguma ambição formal, porque não tem como ir muito longe no interesse pelo produto, não.

Um Grande Momento:
O carro-ganho

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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