Crítica | Streaming

Bastardoz

O que fica é o sabor

(Malnazidos, ESP, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Alberto de Toro, Javier Ruiz Caldera
  • Roteiro: Jaime Marques, Cristian Conti
  • Elenco: Miki Esparbé, Aura Garrido, Luis Callejo, Álvaro Cervantes, Manel Llunell, Jesús Carroza, María Botto, Mouad Ghazouan, Sergio Torrico, Manuel Morón, Francisco Reyes
  • Duração: 101 minutos

Apresentado como “um filme de terror, com zumbis e a pitada habitual de comédia que completa a mistura”, Bastardoz acaba de estrear na Netflix e já é um novo sucesso. O mais importante é que essa promessa não deixa de ser cumprida, mas também não é algo tão taxativo assim. Sim, há terror; sim, há zumbis; sim, há comédia… porém tudo está em equilíbrio tão delicado que acaba deixando a produção com uma substância nova que na verdade não está ali. Porque se tratam de clichês que nunca foram deixados de usar, mas que foram temperados com alguma astúcia, desenvolvendo assim um título requentado, mas cuja qualidade de sua união não se encontra com facilidade. Principalmente quando se trata de Netflix, que não prima exatamente pela garantia de seus produtos. 

Alberto de Toro é um montador experiente estreando na direção, enquanto Javier Ruiz Caldera tem muitos títulos no currículo, todos com um viés cômico, transformando narrativas mais convencionais. Juntos no comando do filme, eles entregam um material raro nessa junção, porque consegue exatamente realçar cada um de seus elementos, e também sua junção, tornando o material orgânico. Não há agressividade nem imposição entre o que apresentam, são personagens e ações que completam um quadro harmonioso nesse amálgama, apresentando cada nuance com elegância. Para complexificar ainda mais a empreitada, a produção tem sua narrativa composta em um universo ainda mais inusitado, embora também ele já tenha tido alguma experimentação recente (Operação Overlord). 

Vemos aqui a Guerra Civil espanhola ser atravessada pelo horror nazista, que faz suas experiências aterradoras em um vale na Espanha. Em meio a terra partida entre os republicanos e nacionalistas, que dizimou centenas de milhares em três anos, Bastardoz situa o oportunismo dos generais alemães da época, em premissa adaptada de um romance de Manuel Martin. O filme prega uma união frente à ameaça zumbi, com os dois lados do conflito sem qualquer motivação para ceder, mas obrigado a um acordo pela sobrevivência, que não era cogitada em outra instância. O filme é honesto com as convicções dos dois lados, e não se empenha em mostrar seus personagens cedendo com facilidade, e mesmo nessa situação, ainda ter como base um núcleo duro teimoso que prefere cair a pensar em união. 

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O elenco escolhido compreende tudo a respeito do que está em cena, e não apenas no aspecto histórico. Fazendo uma leitura acertada de suas personalidades, e entendendo os lugares onde estão inseridos emocionalmente, é difícil encontrar um momento onde cada um não esteja brilhando. Um trabalho muito coeso, que mostra uma ideia de direção de atores das melhores linhagens possíveis. Além disso, existe um desenho de personagens muito bem feito, e também isso fornece a cada um do elenco o material possível para a excelência conjunta apresentada. Da centralidade narrativa conduzida por Miki Esparbé até a leveza de Álvaro Cervantes, passando pela fragilidade de Manel Llunell e a garra de Aura Garrido, poderia ficar aqui citando um a um, mas deixo claro que Bastardoz não tem o que reclamar em matéria de seu cartão de visitas apresentado por esse elenco especial. 

Se existe de verdade algum problema envolvendo essa produção, passa por esse lugar já comentado a respeito de seus lugares narrativamente banais, em seus lugares comuns. Até a óbvia sobrevivência (porque claro que a maior parte do grupo não chegará ao final) não inova, quase que conseguimos acertar até a ordem das mortes, porque a pirâmide de importância de cada um é muito evidente. Com esse sentimento, o que fica na superfície de Bastardoz é a diversão causada pela produção, porque não há originalidade que compense um filme que não te envolva, e não faça o público torcer. Por mais que tenhamos com clareza os passos que o filme dará a cada nova esquina, o prazer que envolve a relação que criamos com aquele universo, tão bem balanceado e bem atuado, é impagável. 

Um grande momento
O piloto se despede de seu fã – e ele se revela 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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