Todo ano há um ritual agendado dez dias antes do início do festival para sacudir a mídia local e internacional para o maior evento cultural da Alemanha. E na manhã desta terça-feira gélida do inverno berlinense, não foi diferente. Porém, em 2019 a coletiva teve uma aura nostálgica. Pela última vez, o diretor do festival, o Mr. Berlinale, Dieter Kosslick será, ao mesmo tempo, anfitrião e homenageado. Ao invés de longas conversas com os diretores das diferentes mostras, Kosslick entrou com toda a equipe do festival, incluindo todas as seções, e alguns membros do comitê de seleção. Espontâneo e sempre sem papas na língua ele já foi avisando: “Eu não vou apresentar as pessoas individualmente, mas queria mostrar que essa é a equipe que faz a Berlinale“.

Depois das diretoras das sessões tomarem seus lugares, foi a vez de Kosslick falar sobre filmes, o tema “O particular é político”, e a exibição do filme “Ghetto de Varsóvia” que, mesmo já tendo sido exibido na TV, será exibido durante a Berlinale.

O evento da cidade outrora cercada pelo muro, tem sempre uma nota política, se mantendo fiel e coerente ao seu próprio início, lá atrás, no setor britânico da Berlim dividida em setores militares.

Com a ascensão vertiginosa de movimentos populistas de extrema-direita no país da cerveja, escancarada pelo partido “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla), Kosslick convidou membros do partido a irem assistir ao filme e garantiu: “Cada um do partido que for ao cinema, terá entrada grátis. O ingresso eu pagarei do meu próprio bolso“.

Decerto que o cinema tem muitos poderes e pode nos influenciar em nossas vidas, mas que pessoas de ideologia extremista não vão ao cinema, Kosslick sabe, mas vale a intenção e, com ela, o exibir de uma ferida. Com isso, Mr. Berlinale legitima a essência do festival e ganha pontos com a população.

Estatísticas

Entre os 17 filmes que serão exibidos na mostra competitiva, 42% são de diretoras mulheres e focam na temática da paridade. Em outras mostras a Berlinale também se mostra política. Na mostra dos Curta-Metragens, por exemplo, os filmes questionam como preservar o passado e construir um futuro em metrópoles babilônicas. O tema inclusão social é uma das linhas vermelhas que passa por toda a programação. A mostra Perspectiva do Cinema Alemão (PDK, na sigla), que foi criada há 18 anos pelo próprio Dieter Kosslick para oferecer a jovens diretoras e diretores alemães uma plataforma durante a Berlinale, foca no tema “Amor”: Amor por alguém, por um lugar, por uma pessoa e como é possível conciliar o amor com a ânsia de liberdade.

De olho na Noruega

O país nórdico é parceiro da Berlinale 2019 e está representado na Mostra Competitiva com o filme Ut og stjæle hester (Out Stealing Horses), com o fenomenal Stellan Skarsgård como protagonista. Também no Mercado Europeu de Cinema (EFM, na sigla) o mercado dos filmes e séries terá foco temático na Noruega.

Vale a Pena Ver de Novo

A lista de estrelas agendadas para visitar a Berlinale não é tão glamorosa como deveria, afinal um festival de categoria A precisa do tapete vermelho como uma importante fonte de visibilidade. Kosslick anunciou na coletiva a esperava lista dos “Quem vem?”.

Christian Bale volta às telas da Berlinale 20 kg mais gordo para viver o ex-vice-presidente americano, Dick Cheney. A Routinier do cinema francês, Catherine Deneuve, passeia novamente elegante pelo tapete vermelho do Berlinale Palast (principal cinema do festival). A diretora belga, Agnès Varda também está de volta, assim como a atriz franco-britânica, Charlotte Rampling, que regressa a Berlim para receber o Urso pela contribuição a arte cinematográfica (Ehrenbär). Em 2015, Rampling saiu de Berlim com a mala mais pesada, com o Urso de Prata de melhor atriz pelo filme 45 Anos.

Entre os nomes que estarão presentes na Berlinale ainda estão Isabel Coixet, a diretora franco-espanhola, presença constante na Berlinale, e a diretora polonesa Agnieszka Holland, que esteve aqui nos primeiros anos de Kosslick e volta para se despedir de um dos seus mentores. Ao todo, 25 países estarão representados nos filmes da mostra na corrida pelos Ursos.

Mas, decerto, a volta mais sensacional é a da atriz francesa Juliette Binoche que, com 22 anos ganhava em Berlim o Urso de Prata pela desempenho no filme O Paciente Inglês, ponta pé inicial de sua carreira internacional. Em 2019, a atriz volta como Presidente do Júri Internacional, que conta também com o diretor chileno Sebastián Leilo, que saiu premiado da Berlinale em 2013 por Glória e, em 2017, por Uma Mulher Fantástica, filme que também levou o Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Além deles, fazem parte do júri a alemã Sandra Huller, atriz de Toni Erdmann; o crítico de cinema do Los Angeles Times Justin Chang; o curador de filmes do Museu de Arte Moderna em Nova York, Rajendra Roy, e a atriz britânica Trudie Styler.

Jogo rápido

A coletiva teve seus rituais: a mostra da mesa que contém os produtos de marketing para que o cinéfilo tenha o festival presente em seu dia a dia no resto do ano, a apresentação da equipe, um pouco das brincadeiras com humor ácido de Dieter Kosslick, janela temporária mínima para as perguntas de jornalistas e um agradecimento no final: “Nesses dezoito anos houveram atritos, mas, no grosso, o trabalho com vocês foi muito legal”. Bateu palmas, foi aplaudido. Fim.

Depois da coletiva oficialmente terminada e com jornalistas se jogando em cima do caderno com a programação como se não houvesse amanhã, um outro ritual: a fila de meios de comunicação para uma exclusiva com o Mr. Berlinale.

Rituais são bem-vindos, mas é preciso, de vez em quando quebrar sua dinâmica para que algo novo possa surgir, sabendo que todo o início causa irritação, desconforto, mas a necessidade do processo de renovação da Berlinale é inadiável.

Em três semanas, quando o Urso vermelho estiver sendo removido da fachada do Berlinale Palast é hora para Kosslick dizer Auf Wiedersehen e, em maio próximo, arrumar a sua escrivaninha no prédio dos escritórios do Festival e partir para o primeiro dia do resto e sua vida.

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