Crítica | Streaming

Bubble

A forma da água

(バブル, JAP, 2022)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Tetsurô Araki
  • Roteiro: Gen Urobuchi
  • Duração: 100 minutos

Os animes japoneses bebem de fontes históricas, fazem representações milenares, e não apenas de si. Eles capturam mensagens de inúmeras nacionalidades outras, ressignificam e dão ao público uma chance de reinterpretar clássicos do passado. Bubble estreia hoje na Netflix depois de ter causado comoção no Festival de Berlim do ano passado, e entende-se porque ao assisti-lo. Hans Christian Andersen ficaria feliz ao ver sua versão aquática ser reverenciada aqui, quando o longa rememora A Pequena Sereia à sua maneira, e entende que o lugar disposto pelo escritor dinamarquês ainda não foi exatamente assimilado na essência original, que não é aquela que Disney nos legou.

Tetsuro Araki, o diretor do notável anime Shingeki no Kyojin (pelo menos das suas três primeiras temporadas), deixa clara aqui sua fluência na ação animada, criando tanto uma narrativa fluida e construída com esmero na confecção de personagens e suas motivações, como nas sequências movimentadas, todas impressionantes. Também responsável por Death Note, Araki, com sua experiência, traça aqui uma ideia que poderia muito bem ser aproveitada por uma série. Sua expertise no formato eleva o material aqui a alçar voos maiores no futuro, com possíveis reimaginações desse universo sem perda de conteúdo ou de suas qualidades, apenas expandindo seus conceitos.

Bubble
Netflix

Aqui estamos em um Japão devastado por uma misteriosa chuva de bolhas que destruiu tudo à sua volta, tornando a capital parcialmente submersa, posteriormente abandonada pela população. São os jovens que encontram finalidade às ruínas, criando uma disputa de parkour entre os escombros inundados e três equipes rivais que se revezam nas conquistas das bandeiras territoriais. Hibiki é o mais talentoso desses praticantes, o de habilidade mais evidente – e com traços de personalidade que o assemelham a um dos protagonistas de Shingeki, Levi Ackerman – e cuja sensibilidade será enfim aflorada pela chegada de Uta, uma jovem que se torna a nova sensação da sua equipe. A aproximação entre eles será crucial para que entendamos toda a motivação da narrativa.

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Araki trouxe junto a si o compositor que o acompanha, Hiroyuki Sawano, que compõe belos e marcantes temas, incluindo um daqueles conjunto de acordes que ficará na sua cabeça por um bom tempo após o término. O roteiro, de Gen Urobuchi, Naoko Sato e Renji Oki, explora todo seu conceito sem acabar com possíveis elipses e dar condições ao espectador de explorar aquele combo de situações de forma livre. Existe sim uma espinha dorsal muito bem urdida ali, e ainda que o filme mastigue seu enredo vez por outra (talvez pensando no público ocidental), tornando sua imaginação mais direcionada, a produção funciona também a contento por conta de um visual acachapante que envolve seu desenvolvimento.

Bubble
Netflix

Em Bubble, vemos a capacidade de reconstrução não apenas espacial, mas principalmente emocional, através de forças muito mais ancestrais. O que está em jogo é a própria percepção de se reconectar com o seu ambiente externo para evoluir internamente. Através de um encontro, reinterpretar as verdades que estavam parcialmente apagadas e, enfim, chegar ao ápice de nossas capacidades. Uta é uma musa inspiradora, que trás a Hibiki não apenas a compreensão de sua existência, mas principalmente as armas necessárias para chegar ao ápice em seus talentos. Olhando sob esse prisma, o filme bebe igualmente na mitologia grega, ao aproximar o mito das musas filhas de Zeus a um público jovem e apresentar a eles um novo caminho fabular.

O que a produção de Araki faz pelo anime é um projeto pessoal do diretor, em encampar novidade estética e narrativa a um jovem já assolado por informações repetitivas. Obras como as citadas onde ele se envolveu se juntam à chegada de Bubble para demonstrar que existem novas portas para se abrir no entretenimento ocidental, que o Oriente já domina faz tempo. O toque de Midas do seu autor é aliar essas narrativas de inspirações em fábulas já apreendidas pelo mundo a uma ideia de ação non stop muito bem cadenciada, em uma animação capaz de embasbacar com seus traços e principalmente a sua capacidade de transformar o que seria impossível no live action em algo frugal, de fascínio inegável. Como uma boa e velha fábula.

Um grande momento
O resgate de Uta

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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