Crítica | Cinema

Chico Ventana também queria ter um Submarino

Descobridor de novos mares

(Chico ventana también quisiera tener un submarino, URU, ARG, BRA, HOL, PHI, 2020)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Alex Piperno
  • Roteiro: Alex Piperno
  • Elenco: Noli Tobol, Daniel Quiroga, Inés Bortagaray
  • Duração: 95 minutos

Deslocamento diante da própria realidade, desgaste físico e psicológico, ostracismo emocional… qual o momento onde uma saída fantástica seria indicada para que nossa existência se fizesse necessária? Chico não se encaixa em seu microcosmos, um navio que abriga um cruzeiro turístico no qual ele é um marinheiro menor. Sua rotina, no entanto, já não enquadra mais apenas lavar o enorme convés que é responsável, mas literalmente explorar um novo mundo. Chico Ventana também queria ter um submarino nem tem seu ponto de partida aí, mas em curtíssima duração mostra que não são apenas os privilegiados a ter direito ao enfado.

Alex Piperno, diretor, roteirista e montador estreante em longas, filma a necessidade do onírico para que o palpável seja suportado, e posteriormente ambicione uma chave de mudança, a contínua ambição humana a estar eternamente apaixonado pelo seu entorno, onde só esse estado de espírito é possível. O encantamento inicial sempre passa – e estamos falando de um protagonista que não necessariamente tinha uma rotina comum. Ainda assim, a fagulha inicial que nos fascina eventualmente irá embora, e o diretor mira nessa busca pelo fantástico para desenrolar sua tentativa de clamor pelo novo.

Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino

Em recortes paralelos, estamos no cruzeiro com Chico, no apartamento de Elsa e em uma floresta filipina onde um grupo de homens descobre um abrigo secreto e desconfia que o mesmo seja responsável por uma maldição na região. Correm então duas narrativas – o encantamento do marinheiro pelo apartamento longe dele, acessado através de uma porta que ele descobre dentro do navio que o linka a Elsa, e os experimentos que esses trabalhadores rurais fazem para tentar adentrar o abrigo, em um misto de medo e sedução; o desconhecido provocando os sentidos, base de tantos gêneros, não apenas a fantasia.

O que o roteiro de Piperno mostra é que o desconforto é contagioso. Quando Chico e Elsa finalmente se integram, o que falta a ele passa a faltar igualmente a ela, e juntos eles tentam criar uma versão alternativa de suas vidas. Ambos seguem em tentativa combinada de encontrar um sentido que falta ao seu universo anterior, e que foi definitivamente alterado pelo exterior. O estrangeiro mais uma vez sendo vetor de mudança no ambiente próprio, e motivando mudanças não apenas sociais como essencialmente particulares, no caso do filme. A brisa que falta a um é trocada pela urbanidade do outro, e aos poucos um novo mundo é criado a partir da intersecção de ambos. Mas será o bastante para dar sentido?

Chico Ventana Também Queria Ter um Submarino

O diretor Piperno também ele guarda algumas belas cartas na manga, ao confiar seu filme acertadamente ao sensorial e criar uma relação labiríntica dos personagens com sua realidade, como se filmasse uma cadeia de desejos compilados em que não apenas um precisa ser saciado, mas muitos deles, quanto mais melhor. Uma sanha que nunca cessa, pois quanto mais portas abertas, mais teremos a abrir – essa parece ser a mensagem que a direção de arte em absoluto quer passar, que desemboca nos belíssimos 15 minutos finais, onde parecem se encontrar enfim o sentido de toda aquela epopeia íntima, que ainda assim é grandiosa em sua ebulição.

Porque não há resposta simples ou clara na manutenção diária do sonho, um lugar que é continuamente inundado de quereres. O batido viés a respeito do conhecimento (quanto mais se tem, mais se ambiciona) é uma das diretrizes desse Chico Ventana também queria ter um submarino, uma ode à eterna curiosidade oriunda dos artistas, dos pensadores, dos filósofos, da arte, enfim. Estaremos sempre em busca de um novo momento de apaixonamento para nos fazer completos, e por isso mesmo, eternamente incompletos. Todos os mares, navegados ou mergulhados, ou seja, estejamos procurando pelo novo ou não, darão vazão a uma eterna busca pelo próximo amor.

Nota: 4

Um grande momento
Chico e Noli

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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