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Cinema etnorracial. Muito além da exibição

Na terceira noite da Mostra Sesc de Cinema subiram ao palco da Casa da Cultura de Paraty a técnica do SESC Betânia Avelar (RO), o diretor do curta Francisco, Teddy Falcão (AC), e o diretor do curta Lilly’s Hair, Raphael Gustavo da Silva (GO), para debater cinema etnorracial. O que ele é e sua existência ou não (não seriam todos os cinemas etnorraciais?), surpreendentemente, não foi a pauta inicial, sendo a mesa assumida sem hesitações como uma conversa sobre o negro e (em menor medida) o indígena no audiovisual, seja enquanto realizador, representado e espectador.

Compartilhando suas trajetórias pessoais – Teddy ressaltando sua recusa a escolher entre a identidade indígena ou a de negro e Raphael refletindo sobre seu interesse prioritário em promover o protagonismo negro –, os realizadores se engajaram em um debate acerca da incerteza quanto ao enaltecimento e apoio à superproduções como Pantera Negra e Homem-Aranha no Aranhaverso, que surfam na onda da moda da temática racial enquanto plano de negócio, fazendo parte da engrenagem do sistema provavelmente sem grandes contribuições para mudanças sociais de fato, como uma representatividade caça-níquel e apaziguadora.

Uma reflexão interessante, de fato, que remonta de certa forma ao antigo debate dos atores negros entre aceitar sempre os mesmos papéis de empregados ou nada. Dar dinheiro para um filme sobre negros ou índios assinado por brancos (ainda mais sem qualquer consideração sobre isso) configura contradição numa época em que tanto se trata de lugar de fala e pensa-se em black money, mas por outro lado faz sentido impedir uma criança negra de enfim se ver retratada nas telonas de um multiplex?

Impulsionar o cinema etnorracial das minorias em termos de representação audiovisual vai muito além do exibir produções estreladas ou comandadas por negros e índios, ou apenas juntar os realizadores não-brancos presentes no evento para um bate-papo vago sobre uma temática quase que ilimitada. Como bem disse Raphael, em seu caso é cada vez mais importante que sua equipe seja negra – ocupando lugares que a branquitude não está disposta a abandonar, o que é notório pela dificuldade de encontrar oportunidade de formação acessível em determinadas áreas, por exemplo.

Entre tantos caminhos, inquietações e dúvidas, ressoaram ao fim perguntas quem nem um diálogo ininterrupto do início ao fim da mostra seria capaz de elucidar: O que é ser negro no Brasil? Quem faz e quem pode fazer cinema etnorracial aqui?

Taiani Mendes

Crítica de cinema, escritora, poeta de quinta, roteirista e estudante de História da Arte. Também é carioca, tricolor e muito viciada em filmes e algumas séries dos anos 90/00.
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