Um dos maiores expoentes do cinema alemão, Rainer W. Fassbinder, dizia: “O cinema liberta a mente”. Entre as frases memoráveis que o (ainda) diretor da Berlinale Dieter Kosslick irá deixar ao passar o bastão, em maio próximo, está: “O filme nos revela o que acontece no mundo”. Isso continua valendo, mesmo com as idiossincrasias do pós-moderno e em tempos de Fake News. Talvez essa contemporaneidade ratifique ainda mais as premissas de Fassbinder e Kosslick.

Para quem é amante do cinema é isso, e muito mais. Algo que você nunca esquece: a primeira história de amor e a primeira vez que esteve num cinema. A minha foi fui quando fui levada, juntamente com minha prima, pela nossa avó, a um cinema lá no centro de Marechal Hermes, Zona Oeste no RJ, para ver o filme Tarzan. O inusitado de tudo isso é que minha avó, em toda a vida, nunca foi uma mulher de cultura. Talvez fosse aquela tarde de temperaturas arábicas do verão carioca uma espécie de missão dada pelo universo, e que ela teria de cumprir: me apresentar o cinema. Um mundo metafísico, imaginário, transcendente.

Gêmeos, Mórbida Semelhança
Gêmeos, Mórbida Semelhança (1988), de David Cronenberg

Lá mais pra frente, eu, já em solos tijucanos, era pulga dos cinemas da região e não havia uma tarde das férias de verão ou folga da escola que eu não estivesse num deles com o pessoal. E, quando os filmes do diretor canadense David Cronenberg eram considerados pela galera da escola como “muito cabeça”, pouco digeríveis, eu entrava mesmo sozinha no cinema. Cada vez era um deleite novo para a retina e eu saia de la, mais inspirada e renovada.

O cinema como ferramenta de desenvolvimento intelectual, aumento da perspectiva do que acontece ao redor ou mesmo como um dos melhores passatempos foi a minha primeira paixão. Quando entrava no cinema, o mundo passava por algo transcendente, metafísico, imaginário que me acometia inteiramente e, por isso, cada vez mais o choque em sair da sala e ver aquele inferno urbano quer era (e continua sendo a Praça Saens Peña). Depois vieram os filmes de Woody Allen e A Rosa Púrpura do Cairo, onde telespectadores entram na tela para fazer parte do filme, foi a peça que faltava do quebra-cabeça, foi quando eu entendi que não era um ser, digamos, esquisito, mas um monte de gente também sentia.

A Rosa Púrpura do Cairo
A Rosa Púrpura do Cairo (1985), de Woody Allen

Glauber Rocha

Uma câmera na mão e uma história pra contar. Entre essas histórias, Glauber denunciou a megalomania de políticos pérfidos, os crimes dos latifundiários e um Brasil desconhecido, um Brasil do sertão, de coronéis e capangas.

Como boa carioca e tijucana, tornei-me obcecada por novelas. Não havia uma que eu perdesse e não havia um diálogo que eu não conhecesse. Me tornei obcecada pela mídia e por tudo que acontecia ao meu redor. A vida foi passando e o cinema foi um pouco para escanteio. Até que numa tarde de inverno de fevereiro de 1989, já em solos berlinenses, eu adentrei o cinema Zoo Palast, o mesmo que foi local da première, em 1927, da obra-prima do expressionismo alemão: Metrópolis, de Fritz Lang.

Metrópolis
Metrópolis (1927), de Fritz Lang

No momento em que entrei, atrasada como brasileira recém-chegada, na tela se dava uma cena de Camille Claudel, em brilhante interpretação da francesa Isabelle Adjani, tendo uma de suas crises temperamentais, destruindo tudo o que tinha no atelier e gritando “Rodan! Rodaaaaaaaaaaan!”. Foi nesse momento, dentro de um cinema (e que cinema!), que eu constatei que Berlim era o lugar que eu sempre anseava e havia, até esse dia, somente no meu imaginário. Na realidade, depois desse filme, que tinha também Gerard Depardieu (hoje, cidadão russo) no papel de Rodin, o meu ser nunca mais saiu daquele cinema.

Foi também por causa do cinema que eu me tornei jornalista. Comecei a escrever sobre a Berlinale em 1998, o ano em que Central do Brasil levou o Urso de Ouro e a fenomenal Fernanda Montenegro o Urso de Prata como melhor atriz. Daí, nunca mais parei de escrever sobre cinema, atividade que ia mais do que “só” nos meses de fevereiro. Outras pautas foram chegando e tomando o ano todo.

Cinema x totalitarismo

No período de governos populistas e fascistas, as primeira medidas são, sempre o estrangular do potencial das artes, com sua essência reflexiva, contestadora, desconcertante. Isso atinge setores de artes visuais, artes plásticas e música, só para citar alguns. A ciência também é uma das primeiras a cair em desgraça em governos populistas, fascistas e de extrema direita, onde toda a forma de intelectualidade e ousadia em se ressaltar da massa é um ato imperdoável e que merece ser castigado com represálias.

Corta-se todo o tipo de fomento da política pública e se censuram espetáculos, como vimos, no final da última semana, com a censura à performance do encerramento da exposição Literatura Exposta, na Casa França Brasil, no Centro do Rio de Janeiro. O governador do Rio, Wilson Witzel e o empossado Presidente da República vão de mãos dadas contra todo o tipo de manifestação e estrangulam a liberdade de expressão, espinha dorsal de todas as formas de manifestação artística.

Recentemente, como júri da imprensa do Festival “Caminhos do Cinema Português” na cidade de Coimbra, na cerimônia de encerramento, mencionei a iminente situação do cinema do Brasil: “A partir de agora, fazer cinema no Brasil será, ainda mais do que um ato de superação, um ato de resistência”. Decerto que, naquela noite, o foco eram realizadoras e realizadores, mas, num contexto de países tão entrelaçados por questões históricas e culturas como Portugal e Brasil, era indispensável mencionar a situação cultural e seus possíveis desdobramentos, especialmente para a produção de filmes.

Seis semanas se passaram e o cenário de tentativa de estrangular a liberdade de expressão em inúmeros setores da sociedade está adiantado, comparando que o novo presidente está desde 1º de janeiro.

Terra em Transe
Terra em Transe (1927), de Glauber Rocha

O discurso livre nas artes dependerá muito da teimosia e da determinação da classe artística, mas isso também é uma pilastra de governos fascistas. Eles conseguem dividir a classe dos protagonistas da arte. Alguns por livre e espontânea vontade e outros, por temer represálias. Foi assim durante os doze anos do nazismo de Hitler (1933-1945); está sendo assim na Polônia, governada por reacionários e populistas, e de forma ainda muito mais grave no Brasil, com sua democracia frágil e inexperiente.

É a arte que nos redime da mediocridade, do pessimismo, do horizonte pequeno e mesquinho. O ex-chanceler alemão e ex-prefeito de Berlim, Richard von Weizsäcker disse em momento histórico de um discurso em Berlim: “A democracia é algo pelo que temos que lutar todos os dias”. Com as artes não é diferente. Uma nação se define pela sua arte, sua cultura, seu cinema e o Brasil está sofrendo um imenso retrocesso, do qual ainda não temos ideia para cifrar.

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