Crítica | CinemaDestaque

Conclave

Mas não conta pra ninguém

(Conclave, GBR, EUA, 2024)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Edward Berger
  • Roteiro: Peter Straughan
  • Elenco: Ralph Fiennes, Jacek Koman, Lucian Msamati, Stanley Tucci, John Lithgow, Bruno Novelli, Thomas Loibl, Brían F. O'Byrne, Isabella Rossellini, Rony Kramer, Sergio Castellitto, Valerio Da Silva, Carlos Diehz
  • Duração: 119 minutos

Passa o tempo, mudam as gerações, mas uma coisa se mantém: ninguém resiste a uma boa fofoca. Segredinhos, disse me disse, traições, provocações e intrigas nunca deixaram de atrair a atenção. Que o diga a proliferação de programas pensados exclusivamente para que observemos a vida e o cotidiano de grupos de pessoas convivendo das mais diversas maneiras possíveis. Conclave não é um Big Brother, mas está ali pertinho. A comparação pode parecer estapafúrdia, mas é nessa curiosidade pela vida alheia, comum a todos, que o longa de Edward Berger, inspirado no romance de Robert Harris, encontra a sua maior força.

No filme, como o nome deixa evidente, cardeais do mundo inteiro se reúnem no Vaticano para eleger o novo papa. Há três grupos que disputam o poder: o que representa uma Igreja Católica de valores mais ortodoxos e radicais, reacionário; o segundo, com uma visão ainda ao centro e, embora represente uma modernização da instituição, tem questões morais; e o terceiro, desarticulado e confuso, mas que pensa uma igreja mais progressista. A intriga política está dada, portanto, e reflete bem o que se encontra no mundo. Pode-se dizer até que de maneira bem fácil aqueles que estão prestando atenção às nacionalidades e posturas.

Aquele microuniverso de poder, onde ganância e corrupção andam lado a lado como em qualquer lugar, é o palco de longos embates de ideias. Conclave traz batinas, homilias e pais-nossos para falar não só de pedofilia, e nem só da onda da extrema-direita que assola o mundo e do despreparo da esquerda para lidar com isso; fala de racismo, xenofobia, invasão do territórios, guerra, terrorismo e mais um monte de outras mazelas humanas. O confinamento e discussões, em largos diálogos, poderiam tornar o longa cansativo, mas Berger sustenta a tensão. 

O diretor destaca bem as reviravoltas de uma trama elaborada e, porque não, curiosa justamente pela facilidade de sua identificação política. Por outro lado, há a pontuação da singularidade. Trazendo imagens imponentes e históricas, cria um jogo de inadequação temporal tão Vaticano/Igreja Católica. Assim como no fora de quadro, mantém uma ameaça constante, que ao mesmo tempo, tira o sentido da manutenção de métodos arcaicos e traz tensão ao principal evento do filme.

Mas não são as imagens e nem mesmo os escrutínios o motor de Conclave. Tanto Harris quanto Peter Straughan, roteirista responsável pela adaptação, criam personagens marcantes, com características familiares e de fácil envolvimento. Berger tem plena consciência disso. À frente de todos está o cardeal Lawrence, vivido por Ralph Fiennes, responsável por comandar a reunião até que a fumaça branca saia pela chaminé e um novo papa seja eleito. Quem assiste ao filme tem muita certeza de quem Lawrence é, até não ter mais, e assim é com outros, ou não. Porém, o que importa é o envolvimento, porque o filme toma corpo no se esgueirar pelos corredores da Santa Sé e descobrir quem são essas pessoas e o que elas fariam para chegar ao poder. Isso inclui, obviamente, alguns esqueletos no armário.

Embora o que se veja e saiba não difira muito do que se conheça e se ouça falar, esse sentimento de estar em um lugar muito hermético e acompanhando o que é tão escondido, dá um sabor diferente. Para completar as fofocas, há ainda o peso dos segredos. O saber aquilo que só uma parte dos que estão ali ficarão sabendo, pelo menos até o próximo conclave.

E, só para não esquecer, Ilze Scamparini, com tanto Vaticano na tela, você fez falta!

Um grande momento
A revelação

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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Luiz Leão
Luiz Leão
02/02/2025 03:01

Assisti duas vezes para ter certeza: é um filmaço! Extremamente competente em tudo que o que se propõe. E vale ressaltar a brilhante trilha sonora e o papel fundamental, um personagem extra, que são os efeitos sonoros.

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