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Coração de Cristal

O obscuro objeto do desejo

(Herz aus Glas, ALE, 1976)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Werner Herzog
  • Roteiro: Herbert Achternbusch
  • Elenco: Josef Bierbichler, Stefan Güttler, Clemens Scheitz, Volker Prechtel, Sonja Skiba, Brunhilde Klöckner
  • Duração: 92 minutos

Um vidraceiro morre, e com ele se extingue uma fórmula milenar para a feitura de um artefato de valor histórico a uma comunidade, o vidro-rubi. Ele representa muito do que se deseja, e do que se esvaiu com o tempo; já não existe mais, o vidro-rubi. Já não existirá mais o objeto do desejo, por isso o desespero está se fazendo presente, cada vez mais intenso e primitivo. Por trás das alegorias ditas indecifráveis de Coração de Cristal, obra menos referenciada de Werner Herzog, jaz uma discussão a respeito dessa condição humana, aquela que não consegue sobreviver apartada da tentação do desconhecido. Onde jaz o furor para encontrar o cálice sagrado, se ele foi considerado perdido de vez?

A partir de sua abertura, com uma parábola sobre a sombra de homem que revela a ilusão dos que a observam, Herzog se mostra conectado ao que é caro ao seu cinema, a transformação gradual da sociedade civilizada em massa disforme do caos, reflexo da selvageria. Está no corpo e está nos rostos, ao vermos que nada mais é como antes, tanto com o que conhecemos quanto com nossa própria imagem. O desmonte da civilidade diante da ausência de uma reflexão mais profunda a respeito dessas mesmas ausências — o que pode ser feito diante da inexistência gradativa? Estamos fadados ao desaparecimento, primeiro as coisas e depois os Homens, tudo simbólico em sua filmografia. 

Coração de Cristal
Werner Herzog Film/Deutsche Kinemathek

Em determinado momento, um personagem profere: “e agora, o que vai me proteger do mal do universo?”, como se uma força superior e incontrolável regesse as relações e os seres. Acreditar em uma zona teológica, outorgando ao Divino uma atribuição puramente humana, reveste de aspectos afins o pensamento do autor, ao qual o instinto básico social define nossas ações e reações. Não há crença em outra coisa, ou não deveria haver, que não no animal humano e na sua capacidade inesgotável de se metamorfosear em natureza primal. Quando abandonarmos a confiança no que é puramente orgânico para abraçar o deífico, a tendência é, de fato, a criação de um processo anárquico. 

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Herzog não esquece aqui dos elementos naturais que enfatizam em sua filmografia esse eterno embate entre o Homem e a Criação, aqui representados pelos quatro elementos. À espreita da narrativa, a água e o ar ocupam quase um papel de comentarista da ação, como se dividissem os atos de uma ópera. Perpassando seus capítulos, somos invadidos constantemente pela erupção de cachoeiras e sua força vital, produzindo com sua violência um estado gasoso que invade a tela. O sábio Hias, espécie de oráculo da narrativa, vive em uma floresta, cercado de terra e árvores por todos os lados, e sendo ele mesmo um ser proveniente da ancestralidade daquela terra. E o fogo é o ápice do macguffin do roteiro, porque é ele capaz de moldar o vidro-rubi – e particularmente uma das cenas mais bonitas e impressionantes do longa é conseguida através de sua ajuda. 

Coração de Cristal
Werner Herzog Film/Deutsche Kinemathek

A dualidade que o diretor cria ao realçar em seu contexto fabular, é a própria criação desse objeto, o ato de modelar e confeccionar vidro, que em sua constituição frágil, ainda assim representa o poder instituído pelas camadas do alto da pirâmide social. O criador de tal símbolo no roteiro, Mühlbeck, que acaba de morrer sem deixar a fórmula para as próximas gerações, também é ele de compleição frágil no que é apresentado; já não está em cena, mesmo estando sempre presente. Juntos, “criador e criatura” mostram que os conceitos de poder são muito mais voláteis e rarefeitos do que acreditam os que o detém. E, com isso, enfatizar essa condição sine qua non da busca por algo que é fugidio, como costumam ser todas as obsessões por dominação de algo; está com você hoje e amanhã não está mais. 

Aos poucos, essa peça vermelha vai mostrando suas outras configurações simbólicas, para o extra e o intra filme. Rubro como o sangue, não é estranho descobrir que sua manufatura tenha sido concebida justamente pelas vias do sacrifício, puro e simples. Daí sua própria condição de arauto da desgraça, que vai se abatendo lentamente por sobre todos que o desejam, a começar pelo seu mentor. Que na sequência a tragédia venha a se impor por essa sociedade infestada de rancor e medo, é de se esperar e prever, elevando Coração de Cristal a uma obra assumidamente política, como raras vezes Herzog foi fora da Alemanha, e aqui interessado no macro poder. Completando agora seus 80 anos, o diretor se reconfigurou em sua carreira estadunidense, mas nunca perdeu elementos dessa verve. 

Coração de Cristal
Werner Herzog Film/Deutsche Kinemathek

As próprias provocações das visões de Hias, que incluem um futuro de mudanças naquele grupo de pessoas, metaforizando o progresso e a dor intrinsecamente provenientes do mesmo, são atos políticos per se. Que ele esteja refletindo sobre o que o roteiro preserva em seu formato, essa tentativa de capturar o conhecimento para uma única mão, diz muito sobre uma visão de totalitarismo que Herzog tenta empregar em sua narrativa, com êxito. Saindo da superfície, mesmo Hias também detém uma aura de poder, tendo em vista que ele tem acesso ao futuro, o que mostra que o povo segue refém de disputas alheias a seu conhecimento e entendimento. 

Nada é mais sintético do que está tentando fazer em sua autoria do que a forma como Herzog deturpa, passo a passo, a imagem de Coração de Cristal. Ele voltaria a utilizar essas armas recentemente, corrompendo tanto Vício Frenético quanto seu último, Uma História de Família, ao digitalizar sua visão. Aqui, o autor deforma seus planos de forma gradativa, primeiro como flashes, quase fantasmas da imagem. Ao longo de sua duração, ao “envidraçar” suas cenas, distorcendo o plano quase como a legar àquele universo o componente que lhe é caro – o vidro – Herzog fragiliza mais do que seu conceito. Ao transformar o quadro em espelho de sua linguagem, o diretor condena espaços e personagens a um fim ainda mais cruel que o de seus habitantes: serão todos matéria-prima a ser moldada pela autoralidade, como evidentemente o são. 

Um grande momento
A fabricação do vidro

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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