Crítica | CinemaDestaque

Sorria

Riso sem graça

(Smile , EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror, Suspense
  • Direção: Parker Finn
  • Roteiro: Parker Finn
  • Elenco: Sosie Bacon, Kyle Gallner, Jessie T. Usher, Kal Penn, Rob Morgan, Caitlin Stasey, Robin Weigert, Gillian Zinser, Nick Arapoglou, Dora Kiss, Jack Sochet, Judy Reyes, Matthew Lamb
  • Duração: 115 minutos

Poucas coisas podem ser mais interessantes e socialmente relevantes do que a temática do terror Sorria, hoje. Com o advento da pandemia do COVID-19, a depressão e a ansiedade se tornaram temas ainda mais comuns nos dias de hoje. Se você não o teve (e grande maioria da população mundial tem ou teve), provavelmente conhece várias histórias próximas que chegaram em graus maiores ou menores, de intensidade e estragos. Logo, se tem algo que hoje promove o horror real e gratuito, são as mortes que nos acompanham, a depressão que se seguiu a elas, o sentimento de desespero real que nos invade em moto perpétuo há quase três anos. Que no Brasil tenhamos tido um governo que promoveu tais mortes, quase as corroborou e riu delas, a estreia dessa semana nos cinemas promove gatilhos de inúmeras ordens. 

Escrito e dirigido pelo estreante Parker Finn, o miolo da ideia do filme é esse, refletir sobre o que a culpa e a tristeza abissal causada pela morte podem fazer com outro indivíduo. É uma premissa poderosa e muito aterradora por si só, causa calafrios só de imaginar, e uma sensação muito profunda de pesar e solidão, de estarmos únicos em uma situação, e ninguém ter a empatia necessária para nos resgatar. Mas Sorria perde a oportunidade de fazer disso algo especial no gênero que escolheu para estar conectado, especificamente. Em explicação, o que é acessado emocionalmente pelo espectador é externo ao que o filme promove, imageticamente; é uma ideia dissociada no gênero, uma emoção apartada do que a produção busca, em seus planos. 

Sorria (2022)
Paramount Players/Paramount Pictures

A impressão que fica é a da decepção. Porque existia sim a oportunidade, o gancho, para elevar o que está em cena. Finn é um curtametragista premiado, que chega com certo prestígio em sua estreia em longas, com um filme que é o último grande lançamento do ano cinematográfico do maior estúdio do ano (a Paramount, graças ao dinheiro que não pára de jorrar na direção de Top Gun: Maverick), mas não corresponde ao esperado por suas ideias. Em cena, vemos esse argumento se apresentar, suas metáforas até se aninharem pela narrativa, mas isso não é transformado em potência imagética. Quando uma produção absolutamente desprovida de defesa como Men ainda assim promove um espetáculo visual de encher os olhos e Sorria não, deixando sua possibilidade de marca autoral escorrer pelos dedos, sem arrebatar, sobram motivos para lamentar.

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O cinema de gênero, seja ele o horror, a ficção científica, o suspense, tem uma construção visual sólida, que precisa ser estabelecida para que tal universo seja minimamente acessado pelo espectador. É uma marca que costuma preparar o público para o que está propondo, diretor e roteirista, na criação de sua marca, enquanto produto de massa. Sorria não apenas não dispõe de uma assinatura, como tenta “brincar” (se apropriar?, homenagear?; difícil compreender…) com imagens clássicas de filmes que nem se imaginariam passear por aqui, como Alien 3. A própria difusão de uma tentativa de criação de imagem gráfica, o tal sorriso maligno que persegue as vítimas antes dos crimes, não é evidenciado graficamente pelo filme, que também não cria uma narrativa embasada em situações concretas. 

Um exemplo disso é um certo prazo que é estabelecido para o intervalo de futuras mortes no filme, que simplesmente não tem padrão. Poderíamos argumentar que, assim sendo, Sorria cria um grau de aleatoriedade que cai bem ao gênero, pois o acontecido estaria disposto a nos surpreender, em roteiro. Só que isso não pode acontecer, tendo em vista que o filme acompanha apenas uma única narrativa, a da protagonista; a ausência de padrão só é observada nos casos anteriores. Como, imagina-se, que a protagonista só resolverá seu imbróglio no fim do filme, não há sequer suspense para que ela sofra antes do tempo. Ou seja, até quando tenta criar uma situação disruptiva, o longa falha em sua própria lógica, que a bem da verdade, não há. 

Sorria (2022)
Paramount Players/Paramount Pictures

As questões ligadas à hereditariedade são igualmente desperdiçadas, ao abordar a depressão e sintomas psicológicos tratáveis. Quando a protagonista Rose, ao sobreviver a um trauma familiar, acaba cometendo outro com uma geração futura de sua família, Sorria parece enfim lembrar de questões caras ao que o próprio roteiro constrói, enquanto narrativa. Existe um olhar lançado para Rose de dentro de uma janela que pode linkar as pontes que o filme facilmente acessaria a partir de tais eventos. Mas, como já dito, o diretor não consegue fazer seu longa ter liberdade criativa nem para o horror nem para sua vertente psicológica. Em seu lugar, mais um arsenal de campos desperdiçados pelo roteiro e pela direção, que não conseguem aproveitar os ganchos que cria. 

Para completar a salada, Sorria ainda acha por bem “homenagear” um dos melhores filmes de terror da década passada, Corrente do Mal. Me leva a acreditar que Finn é um dos realizadores mais corajosos a surgir ultimamente, a ponto de ousar mexer na dinâmica de um filme da envergadura do longa de David Robert Mitchell. A julgar por aqui, Finn continuará conhecido pela coragem mesmo, já que os dotes vistos nas suas incursões curtas não deram as caras nessa sua primeira experiência longa. Ficam os símbolos repetidos (alucinação gigante, clímax em uma casa incendiada, longos passeios de carro em gruas, etc…) e a certeza indigesta de que poderíamos ter caminhado por uma estrada muito mais arriscada, e assim por dizer, interessante. Sorria não sobrevive na memória até a semana que vem. 

Um grande momento
Um ‘oi’ pela janela do carro

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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