Crítica | FestivalMostra SP

Coronation

Vida e morte em Wuhan

(Coronation, CHN, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Ai Wei Wei
  • Roteiro: Ai Wei Wei
  • Duração: 113 minutos
  • Nota:

A produção audiovisual concebida a partir do contexto da pandemia de COVID-19 certamente será objeto de análise por bastante tempo, não só por comentar a proporção da crise sanitária que afetou o mundo, mas também por contestar discursos e pontos de vista. É previsível, mas não menos adequado, que o artista visual, cineasta e ativista chinês Ai Weiwei se interesse em jogar luz naquele que foi o primeiro foco do vírus, a cidade de Wuhan. Coronation é o resultado de um trabalho coletivo concebido por Ai durante o primeiro semestre de 2020 e que nos é entregue ainda com a pandemia em andamento, o que naturalmente esquenta a experiência junto ao filme.

Da Europa, onde vive, Ai coordenou uma equipe de colaboradores e voluntários que, munidos de uma câmera e de muito desejo de participar do projeto, vasculharam as ruas silenciosas de Wuhan em busca de histórias que revelassem o impacto social, político e psicológico da pandemia. A direção remota de Coronation é tanto um atrativo quanto um risco, já que cabe a Ai a condução seus “funcionários” para a coleta de conteúdo. É interessante observar o funcionamento do dispositivo, já que o observador local capta as imagens e o diretor, longe desse cenário, depende dele para a criação do registro fílmico. Assim, a relação de dependência e confiança se abre para o atravessamento de muitos olhares sobre o mesmo tema, cabendo ao realizador a consumação da narrativa.

Coronation, documentário selecionado para a 44ª Mostra de São Paulo

O documentário tenta dar conta de uma multiplicidade de fatos em torno de Wuhan, desde a omissão das autoridades locais quanto à gravidade do vírus no início da pandemia até o direito de enterrar os mortos. Coronation também mostra a influência política do artista no território chinês, em especial ao adentrar nos hospitais de campanha. As longas sequências nos corredores apáticos dos hospitais, o ritual de paramentação dos profissionais da saúde e a agonia dos pacientes que respiram por aparelhos dramatizam os efeitos catastróficos da doença. Um olhar que nos remete ao trabalho documental de Frederick Wiseman em Hospital (1970) e, principalmente, Near Death (1989), ainda que de uma forma menos incisiva.

O diretor transita entre o tom de denúncia e o de solidariedade para com as vítimas e seus familiares sem ser pedante. É um gesto que agrega sentido ao filme, já que os danos da pandemia já foram espetacularizados o suficiente por parte dos veículos de imprensa pelo mundo. Talvez Coronation esteja até um tom abaixo do que se espera de um trabalho de Ai que, como ativista, não mede muitos esforços na elaboração de suas obras audiovisuais ou de suas instalações artísticas. O sufoco que sentimos quando ficamos diante da escultura Law of the Journey (2017), seu famoso e gigantesco barco inflável de refugiados – tema recorrente em sua carreira e central também no documentário Human Flow: Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir (2017) – ou a rebeldia da imposição do dedo médio em fotografias e monumentos que confrontam o sistema político não são sentidos neste novo projeto. Há uma contenção que pode até mesmo ser reflexo da dinâmica de criação do filme, em que o domínio sobre o registro das imagens não parte apenas dele como autor.

Coronation, documentário selecionado para a 44ª Mostra de São Paulo

Com tantas horas de gravação e irregularidade na prioridade dos discursos coletados, a montagem de Wang Fen tem certa dificuldade de dar ritmo aos retalhos dessa narrativa. A potência das sequências entre médicos e pacientes é abalada quando outros participantes compartilham suas experiências, como o homem que não consegue deixar a cidade após concluir o seu trabalho e, principalmente, a senhora que conversa sobre o Partido Comunista e rememora sua relação pessoal e política com a China. São personagens interessantes, mas que ultrapassam o tempo de tela e rompem o andamento proposto inicialmente com os efeitos mais práticos da pandemia nos hospitais e nas ruas de Wuhan.

Coronation perde com a urgência em ficar pronto e ser exibido – Ai chegou a declarar que diversos festivais e plataformas de streaming recusaram o filme para não se indispor comercialmente com a China –, mas ganha com sua relevância temática e destreza de realização ao pensar a crise de 2020. A inquietação acerca das questões humanas e das formas de poder permanecem firmes, reiterando a sua importância para a arte contemporânea em um momento que só ela mesma salva.

Um grande momento
O canto das cinzas

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Diego Benevides

Diego Benevides é jornalista, pesquisador, crítico e curador de cinema. Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com pesquisa em cinema brasileiro. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e sócio-fundador da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine)
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