Cyrano

Bonito como Christian

A literatura produziu histórias de amor que são atemporais e inesquecíveis. Entre elas está aquela escrita por Edmond Rostand sobre um cara feio com um nariz enorme que não tem coragem de assumir o seu amor e deixa sua grande paixão ser vivida por outra pessoa que, de certo modo, finge ser ele. Emprestando suas palavras ao jovem de aparência bonita, também apaixonado por sua Roxane, faz com que este a conquiste. Estou falando do clássico “Cyrano de Bergerac”, peça em versos escrita em 1897 e já adaptada algumas vezes para o cinema, tendo no filme de Jean-Paul Rappeneau, com Gérard Depardieu no papel do poeta apaixonado, lançado em 1990, sua melhor versão.

Quem se debruça sobre o material agora é Joe Wright, talvez um dos mais impressionantes nomes da atualidade quando se pensa em adaptações literárias. Estão aí Orgulho & Preconceito, Desejo e Reparação e até mesmo Anna Karenina que não me deixam mentir. Seu Cyrano é baseado no musical Off-Broadway de mesmo nome escrito por Erica Schmidt, esposa do ator Peter Dinklage (Game of Thrones), que o escreveu pensando no marido e fazendo com que a estatura fosse a grande questão por trás do preconceito e da não aceitação do protagonista.

Peter Mountain/Metro-Goldwyn-Mayer

Como um bom exemplar de Wright, esteticamente, tudo é superlativo no longa. Dom particular do realizador, em suas recriações e ambientações, ele exagera, sem ultrapassar os limites. Há muita atenção aos detalhes e uma precisão na construção de ambientes que se completem e façam sentido em conjunto e em relação à obra. Sempre cercado de excelentes profissionais, não há o que se falar do desenho de produção de sua colaboradora habitual Sarah Greenwood, da cenografia de Katie Spencer (A Bela e a Fera) ou dos figurinos de Massimo Cantini Parrini (O Conto dos Contos), com os vestidos de Roxanne especialmente desenhados por Jacqueline Durran (Adoráveis Mulheres).

O deleite visual é inegável, tudo o que se vê impressiona e agrada. E o filme é pontuado com bons momentos de ação, como o ataque na escadaria, e drama, como quando Cyrano tenta revelar sua paixão. Além disso, sabe se aproveitar dos personagens cativantes e conta com boas atuações. Ainda que não seja o melhor dos cantores, Dinklage surpreende no papel do homem que sofre com sua paixão platônica, e Haley Bennett (Swallow) está muito bem como a inocente e iludida Roxanne.

Peter Mountain/Metro-Goldwyn-Mayer

Cyrano tem tudo para chegar no lugar certo, mas não consegue superar uma certa falta de profundidade e fluidez. Não há problema no excesso visual, mas a profusão ultrapassa o campo estético e é como se houvesse coisa demais atrapalhando o envolvimento com a história que está sendo contada. Perdido entre musical, romance, ação e drama, o estranhamento está em como se dispõem as músicas, compostas pelos gêmeos Aaron e Bryce Dessner, do the National; as bem coreografadas lutas; e até mesmo as muitas declarações, sejam elas narradas ou declamadas. Falta equilíbrio e coesão, e isso afeta diretamento o modo como o público se relaciona com o filme. É como se os momentos estivessem sempre longe de atingir o seu ponto alto e, quando isso acontece, falta habilidade no retorno.

Assim, acompanha-se aquilo que todo mundo sabe onde vai chegar, porque a história é para lá de conhecida, aproveitando todo o visual que foi cuidadosamente construído para impressionar. Ironicamente é como se estivéssemos vivendo, em outra medida, aquilo que Rostand escreveu lá atrás, num jogo de “enganação” onde a imagem muito bonita é de um, mas as palavras, igualmente belas, nunca foram dele. O Cyrano de Wright, na verdade é um Christian.

Um grande momento
Roxanne conta que está apaixonada

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