Crítica | Outras metragens

Descompostura

A violência de todos os dias

(Descompostura, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Víctor Alvino, Anaduda Coutinho, Marcio Plastina, Alline Torres
  • Roteiro: Víctor Alvino, Anaduda Coutinho, Marcio Plastina, Alline Torres
  • Duração: 8 minutos

Há um desdobramento de idéias sob o qual Descompostura versa, ampliando os olhares atuais sobre o cinema de arquivo através de material que se ressignifica e reverbera sem utilizar verbalização particular. O filme, dirigido por um quarteto formado por Alline Torres, Anaduda Coutinho, Marcio Plastina e Victor Alvino, pega o que é notório em Tudo que é Apertado Rasga e repercute pra fora da arte, especificamente investigando o racismo histórico nacional através do seu material pictórico e audiovisual de outrora pra mostrar que muito pouco mudou.

Tratando com extrema naturalidade o que não era problematizado à época, o filme em cartaz no Festival Ecrã conecta casos de violência doméstica com prosaicas visões familiares, que não possuem qualquer romantização. É o eterno jogo de classes traduzido em preconceito tão histórico quanto estrutural, que hoje apenas é reconfigurado nominalmente, mas que nunca deixou de fazer um cruel sentido; “você é como se fosse da família”, aqui, tem sua base de constituição nuclear, com a violência surgindo à espreita.

Descompostura
Cortesia Festival Ecrã

Essa mesma violência é grafada nas páginas de jornais, que objetificam mulheres envolvidas em contextos criminais. Nominadas como “pretas” a simples menção de seus nomes, essas mesmas mulheres são descritas como perigosas, arruaceiras e causadoras de problemas; ao associar a descrição étnica a uma notícia ordinária e sensacionalista, o jornal apregoava o tratamento da sociedade em seu tempo corroborando os atos de violência contra mulheres periféricas em cada linha de sua reportagem.

Com excepcional trabalho de pesquisa e montagem, que reencena através da cadência de suas imagens séculos pós-escravocratas nunca superados no microcosmos social, Descompostura denuncia flagrantes de melancolia e silenciamento de seus planos sutilmente concebidos nessa edição. Em especial uma sequência segue incomodando por muito tempo após a sessão, onde vemos uma possível babá de alegria contagiante ser sistematicamente coberta por um jovem da família, provocando desconforto em quem assiste.

Descompostura
Cortesia Festival Ecrã

Tendência que sempre rondou o curta-metragem nacional, Descompostura se impõe ao refletir sobre o material gráfico prévio sem elaborar material sonoro para compor sua narrativa. A força das imagens e do texto jornalístico eles se constroem suficientemente impactantes mesmo um século depois de captados e volta a provocar estupefação através das molas que o cinema encontra para expressar opinião — o cinema ressalta aos olhos do espectador o que realmente importa em cada imagem, em cada vídeo, em cada frase, ou seja, que seu impacto narrativo cause horror pela violência que não tira sangue.

Um grande momento
Alegria independente

[5º Festival Ecrã]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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