Crítica | FestivalMostra SP

Dias

Do ato de potencializar um encontro

(Rizi, TPE, FRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Tsai Ming-Liang
  • Roteiro: Tsai Ming-Liang
  • Elenco: Lee Kang-sheng, Anong Houngheuangsy
  • Duração: 127 minutos
  • Nota:

O vazio dos dias, a rotina como caminho inescapável, a espera por um momento que talvez nunca chegue… e será percebido quando chegar? Se essas e outras questões formam a narrativa de Dias, novo longa-metragem do mestre malaio Tsai Ming-Liang, trazendo uma amplitude de vozes ainda caladas até então nessa vasta cinematografia, a roupagem onde seu material se apresenta é reconhecida com facilidade aos apreciadores do autor de O Rio, O Buraco, Cães Errantes entre tantos. Essa moldura que nos permite uma aproximação ao seu universo, como se tudo fizesse parte de uma antologia de momentos seus e de Lee Kang-Sheng, seu ator-símbolo, é também um porto seguro que nos aproxima de seus signos.

Como se mais um capítulo desse glossário de imagens fosse enfim disponibilizado ao espectador pelo autor, a obra de Tsai não deve, contudo, ser acusada de qualquer espécie de repetição temática, ao qual uma crítica vazia poderia tentar ingressar; sua aproximação é estritamente autoral, quiçá imagética, cujo comodismo narrativo jamais poderia ser atribuído. Seu cinema é talhado justamente pelo incômodo pela relação ao espaço-tempo do tradicional clássico-narrativo vigente, e o embarque por essa busca à diferentes texturas de deslocamento do tempo é subjetivo, sendo impossível cobrar absorção integral do espectador não-versado – ainda que suas produções tenham um falso carimbo hermético.

Dias, filme selecionado para a Mostra de São Paulo

Digo falso porque são experiências até exaustivas, emocionalmente exigentes, mas cuja compreensão anseia o encontro. É o tempo que exaure em Dias, e não suas ideias; dessa forma, o filme apresenta perfeitamente sua proposta imersiva, ao nos mergulhar no moto perpétuo das ações banais do humano, dando peso extra ao minuto, principalmente a quem deseja se livrar deles. Ao filmar cada mínimo compasso de espera de seus dois protagonistas, invadindo seus atos e sua intimidade, Tsai embebeda Dias com o peso que arrasta (e arrasa) Kang, um homem cuja dor extrapolou a alma para identificar-se real.

Sabiamente, o diretor cria uma dualidade muda entre seus personagens. O conforto de poder se deixar levar pela melancolia presente em Kang, falta em Non, exaustivamente comprometido com afazeres de múltiplas ordens. Enquanto um é reflexão, o outro é ação; se um sente intrinsecamente o peso desses dias, o outro reverbera de maneira externa a obrigação dos mesmos. Uma gangorra complementar, Yin-yang funcional que se desdobra ao entrar em contato um com o outro – e a partir de então, não apenas filmar a solidão como também matizá-la, dando textura a diferentes lados da mesma.

Dias, filme selecionado para a Mostra de São Paulo

Colocar seus protagonistas em contraponto é da ordem das inteligências narrativas do longa, que sem pesar a mão, os intercala sempre em perspectiva com o outro. Esteticamente, Tsai Ming-Liang mais uma vez entrega uma leitura acertada de planos e luzes, pela primeira vez a cargo de Jhong Yuan Chang, que consegue dar a Dias uma visão mais limpa de quadros, que acaba se mostrando um acerto. O trabalho fotográfico aqui representa uma guinada para um lado menos sombrio que sempre se adequa muito ao cinema de Tsai; ao abraçar a luminosidade, a vibração de luzes e cores, o diretor projeta mais uma dualidade dentro de sua obra, que rivaliza a enfermidade do nosso tempo impressa em Kang com o excesso de vida invade as imagens.

Como esses dois núcleos precisam um do outro tal qual nêmeses particulares, impressiona muito a força com que tudo é preparado para seu encontro, que acontece não para subverter a narrativa, mas potencializar suas verdades e estabelecer novos parâmetros individuais a seus personagens. Se Dias já alcançava força descomunal em sua zona de ausência espacial e emocional, ao confrontar seus protagonistas, é promovido algo que há muito tempo não víamos o diretor realizar. Sinalizando para o afeto que salva, para o encontro que transcende, Tsai Ming-Liang emociona verdadeiramente ao sucumbi-los um diante do outro, como se reafirmasse a força de sua narrativa sobre o fardo de existir e da inoperância de estar só ao abraçar e promover a beleza de se entregar, seja lá por quanto tempo for.

Um grande momento
A caixinha de música

[44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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