Direito em Cenas

Luce

O longa Luce conta a história do jovem brilhante que dá nome ao filme, interpretado por Kelvin Harrison Jr. O jovem em questão vive uma vida tranquila, sendo considerado a estrela de sua escola, por se destacar tanto em esportes, quanto em notas e em sua habilidade para falar em público, razão pela qual é mais de uma vez chamado como orador de sua turma e de sua escola.

Tudo parece ir perfeitamente bem, seguindo todos os planos e cumprindo todas as expectativas que o jovem, assim como sua família e seus professores depositam em si, contudo, após realizar uma tarefa passada pela professora Harriet (Octavia Spencer), na qual ele deveria elaborar uma redação se passando por alguém famoso na história, Luce começa a ver sua vida virar de cabeça para baixo, por ter escolhido Frantz Fanon.

Os pais adotivos de Luce, Amy Edgar e Peter Edgar (Naomi Watts e Tim Roth), sempre muito orgulhosos de seu filho pródigo, também se veem submersos no caos que se torna a vida do jovem após a redação feita para a aula de história, e, apesar de suas diferenças e dos estranhamentos que têm entre si, tentam fazer de tudo para proteger o filho, não importa o que aconteça.

No desenrolar da trama, o público passa a ter contato com uma parte da personalidade do jovem Luce Edgar que parecia estar oculta até então, contudo criou forma e ganhou espaço após o cumprimento da tarefa de história, razão pela qual todos os personagens, salvo o próprio Luce, são pegos de surpresa e não sabem direito como lidar com a situação, nem como abordar a questão com o rapaz.

Direito em Cenas: Luce

Durante as tentativas de Amy de tratar do delicado assunto com o filho, algumas é mencionado o termo “etiquetamento”, fazendo menção sutil à teoria do etiquetamento social, surgida na década de 60, nos estudos da área de criminologia, que buscavam encontrar uma razão para que o criminoso decidisse incorrer em crime.

A teoria do etiquetamento social surgiu como uma resposta teórica às teorias iniciais sobre o estudo do crime e do criminoso, que diziam que o indivíduo criminoso o é por razões biológicas, bem como buscava fazer acreditar Cesare Lombroso.

Lombroso alegava ser o criminoso uma vítima de condições atávicas, isso é: o criminoso era um indivíduo que, por alguma razão, sofrera uma regressão hereditária e chegou a estágios mais primitivos da evolução – aqui, analisando a evolução apontada nos estudos científicos de Charles Darwin.

Contudo, com a evolução da sociedade e das pesquisas criminológicas, os criminólogos, juristas e a própria sociedade se viu descontente com essas conclusões da antropologia criminal, principalmente quando verificaram que os estudos feito por Lombroso eram extremamente enviesados: para confirmar a tese que criara, o antropólogo fazia pesquisas somente com presos que se adequavam aos padrões físicos que ele tinha dito serem uma “regressão evolutiva”.

Daí porque vários estudos surgiram, em busca da compreensão do crime enquanto um fator social, e do criminoso como um indivíduo com pleno desenvolvimento evolutivo, contudo, que decide, utilizando-se de seu livre-arbítrio, deixar de seguir regras, leis e convenções sociais.

Direito em Cenas: Luce

Nesse contexto de melhor compreensão do fenômeno criminoso e do agente delinquente desenvolveu-se a teoria do etiquetamento social (labelling approach theory), a qual consiste na alegação de que a delinquência não é uma característica inerente dos sujeitos criminosos, mas, ao revés, uma “etiqueta” que eles recebem da sociedade.

Foi por força da teoria do etiquetamento social que se tornou possível parar de focar somente no criminoso, para voltar os olhares aos serviços de segurança – polícia e penitenciárias -, bem como ao Poder Judiciário e outras instituições de controle social, a fim de compreender como os rótulos criados socialmente são aplicados por tais instituições, e, consequentemente, criam uma repercussão e reação social de estigmatização do indivíduo taxado como “criminoso”.

Os estudos da teoria do etiquetamento social concluíram que os indivíduos são etiquetados antes mesmo da prática de um crime e, a partir deste etiquetamento, passam a serem renegados pela sociedade e ter seus comportamentos sempre analisados com dureza e críticas negativas, de modo que, caso nunca incorram em crimes, não ganham o devido reconhecimento, mas caso o façam, se enquadram nas expectativas sociais.

O etiquetamento tem tanto peso sobre a vida dos indivíduos que, além de serem marginalizados pela sociedade, como um todo, ainda passam a ter uma visão deturpada de si mesmos, criando a equivocada concepção de que jamais poderão atingir grandes espaços na sociedade, devendo, portanto, se contentar com pouco.

O longa Luce, por sua vez, aborda a questão do etiquetamento quando traz um indivíduo negro na sociedade norte-americana – reconhecidamente racista, e com o padrão de etiquetar todo negro como “criminosos” -, como um sujeito extremamente qualificado, inteligente, eficiente e dedicado.

Direito em Cenas: Luce

O rompimento do padrão, criado pela própria sociedade norte-americana, faz com que os demais personagens da trama estejam sempre dispostos a passar o pano para o jovem negro prodígio, afinal, ele é o exemplo de como um adolescente negro pode ser capaz de evoluir ganhando prêmios, sendo um ótimo orador, debatedor, e mantendo boas notas.

Luce, contudo, não está nem um pouco satisfeito com o pedestal no qual fora colocado, sendo sempre tratado de forma diferenciada em relação a seus amigos, o que o faz se revoltar com esse sistema de etiquetamento que, sem sua permissão, o colocou como um exemplo a ser seguido, mas renegou seu amigo, DeShaun (Astro), simplesmente porque encontraram maconha em seu armário.

De forma sutil, o filme demonstra como o etiquetamento social é capaz de arruinar a vida das pessoas: tanto por criar expectativas excessivas em cima de alguns indivíduos, taxados como “perfeitos”, “padrão” ou “exemplos”, quanto por criar expectativas extremamente negativas sobre os indivíduos marginalizados e renegados.

Os efeitos negativos do etiquetamento ficam ainda mais palpáveis quando o longa aborda a resposta dada aos dois jovens negros: DeShaun, apenas mais um negro que sofre o racismo diário, foi expulso do time da escola, tendo perdido sua bolsa de estudos em razão disso; Luce, por sua vez, adotado por um casal branco e de classe média alta, é tratado com vários cuidados – sua mãe é chamada na escola para conversar, é feita uma reunião com a professora e o diretor, e há todo um jogo de cintura para não penalizar o jovem prodígio, afinal, isso poderia arruinar sua vida.

Direito em Cenas: Luce

Esse tipo de tratamento diferenciado também é questionado pelo próprio DeShaun, que sempre usou maconha com os colegas de escola, inclusive Luce, e, assim como Luce, dividia armário com outros amigos, porém não lhe foi garantido o direito da dúvida quanto à droga encontrada em seu armário, o que lhe fez se revoltar contra o colégio e os professores e se afastar dos antigos amigos, para andar com os traficantes da escola.

Essa é a consequência daquilo que se chama de “etiquetamento”: antes mesmo de cometer qualquer infração, o indivíduo já é afastado do convívio social comum, de modo que todas as suas ações são vigiadas pelos atentos olhos dos etiquetadores, que aguardam até o fim da vida destes indivíduos para etiquetá-los e dizer abertamente que estavam certos.

O etiquetamento social é a mais sincera forma de racismo, machismo, homofobia e de todos os outros preconceitoso, que cria uma etiqueta ao que é diferente do “padrão” e aguarda ansiosamente pelo momento em que possa dizer abertamente: “eu disse que ele seria criminoso”; “eu avisei que ela não daria conta”; “eu sabia que ele/a era pervertido/a”, etc.

(Luce, EUA, 2018, 85 min.)
Drama | Direção: Julius Onah | Roteiro: Julius Onah, J.C. Lee | Com: Naomi Watts, Octavia Spencer, Kelvin Harrison Jr., Tim Roth, Norbert Leo Butz, Andrea Bang, Marsha Stephanie Blake, Noah Gaynor

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Direto em Cenas

Daniela Strieder

Advogada e ioguim, Daniela está sempre com a cabeça nas nuvens, criando e inventando histórias, mas não deixa de ter os pés na terra. Fã de cinema desde pequenina, tem um fraco por trilhas sonoras.
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