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Dogs Don’t Wear Pants

Renascidos da dor

(Koirat eivät käytä housuja, FIN, LAT, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: J.-P. Valkeapää
  • Roteiro: Juhana Lumme, J.-P. Valkeapää
  • Elenco: Pekka Strang, Krista Kosonen, Ilona Huhta, Ester Geilerova, Oona Airola, Samuel Shipway, Jani Volanen
  • Duração: 105 minutos

Responder a dor com dor, talvez seja essa a conclusão a qual chega Juha, o protagonista de Dogs Don’t Wear Pants. Como se uma ação se sobrepusesse a outra de modo a eliminá-la, por completo. Quando criança, eu entendi que o remédio ruim provocava a cura de possíveis dores porque nos tirava do lugar da concentração da dor, para focar em eliminar nova sensação, a provocada pelo gosto desagradável; era isso, na verdade, que afastava os males, uma nova preocupação. O personagem parece seguir uma lógica parecida ao se dedicar a uma espécie de autoindução de dor, para então aplacar o mal original. 

Isso e também preencher o vazio originado em sua vida pelo luto. Do amor, só restou a lembrança que provoca o sofrimento, e a indução a esse moto perpétuo que leva eternamente a não sair dessa ciranda. Por que não sofrer, quando acreditamos ter causado uma dor suprema? Mesmo essa incompletude que provoca uma frustração, que não está apenas em Juha como também em Mona (sua coprotagonista), será aplacada de maneira extrema pelos personagens. Cada um ao seu modo, o que vemos é uma luta contra uma prostração contemporânea com armas pouco usuais, mas que representam o grito silencioso pelo encontro e pela troca.

Dogs Don't Wear Pants
SF Film Finland

É fácil se enganar sobre o que são as reais forças motrizes por trás de um filme como Dogs Don’t Wear Pants, que se assemelha tematicamente a outras produções, mas abordando aqui seu mote de uma maneira verdadeiramente inusitada. Tendo em vista que um de seus lugares é o da prática do BDSM (sigla que resume as práticas de sadomasoquismo, disciplina, dominação, submissão e afins), o luto – que é a mola propulsora do longa – poderia ficar obscurecido. Isso até acontece em determinado momento, e o filme se perde de sua voz momentaneamente, mas são lugares tão conectados pelo roteiro, que o espectador se vê obrigado a conjecturar se o longa não quer dizer que uma coisa é consequência da outra. 

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Essa leitura pode ser feita a partir do filme de J.-P. Valkeapää. Como é vista a relação entre causa e consequência na narrativa? O que pode ser considerado penalidade, e como essa dualidade é externalizada no longa? O diretor finlandês tem coragem de bancar essa discussão e peitar dissabores com uma fatia social bem invisibilizada. Não há, porém, como negar as qualidades de um longa que acerta tão frontalmente na extensão das propriedades da depressão e do luto, a ponto de desembocarem em terreno tão radical. Seus protagonistas fogem do que sentem, produzindo em si mesmos novas sensações ainda mais definitivas, e literalmente marcantes. 

Dogs Don't Wear Pants
SF Film Finland

A atmosfera criada na totalidade da produção é igualmente acertada, seja em seu ponto de partida bucólico, que se transforma em crescente pesadelo; seja no miolo soturno de direção de arte opressora muito bem concebida. Há um tom de constante acerto na concepção coletiva, que atenua suas polêmicas (pré-concebidas ou não) para trazer com propriedade essa mise-en-scène que explora corpos e histórias sedentas por atenção, mesmo que isso represente imolá-los, de alguma forma. O filme pode não apresentar tão bem os motivos pelo qual investe nesses padrões, mas o resultado obtido por suas escolhas são de profundo interesse estético e até emocional; há uma fácil identificação com o que sentem tais personagens. 

Em cena, tanto Pekka Strang quanto Krista Kosonen, os atores que interpretam Juha e Mona, simbolizam o tanto dessa solidão que se transforma em melancolia, posteriormente em depressão, mas transformando essa fragilidade em empoderamento, de maneira quase surreal. Saem fortalecidos pela junção do que aparentemente os torna mais introspectivos, explodindo a tela em imensa vontade de viver, uma descoberta nascida dessa interação. O saldo de Dogs Don’t Wear Pants é positivo pela forma tão verdadeira com que seus símbolos se transformam em seres humanos, com tantas miudezas idiossincráticas. Seres em busca de um sopro de reconhecimento e pertencimento.

Um grande momento
A primeira conexão BDSM

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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