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Donbass

Planos da guerra

(Donbass, ALE, UKR, FRA, HOL, ROM, POL, 2018)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sergey Loznitsa
  • Roteiro: Sergey Loznitsa
  • Elenco: Tamara Yatsenko, Liudmila Smorodina, Olesya Zhurakovskaya, Boris Kamorzin, Sergei Russkin, Petro Panchuk, Irina Plesnyaeva, Zhanna Lubgane, Vadim Dobuvsky, Alexander Zamurayev, Gerogy Deliev, Valeriu Andriuta, Konstantin Itunin, Valery Antoniuk, Nina Antonova
  • Duração: 122 minutos

Donbass é uma das áreas mais populosas da Ucrânia, palco de uma guerra civil que já dura sete anos e causou mais de 13 mil mortes. Donbass também é o título de um recente filme de Sergei Loznitsa e que acaba de estrear na plataforma Reserva Imovision, e que tenta observar o mosaico de terror na região através de um teatro do absurdo, um show de horrores que pode minimamente ser classificado como surreal até conhecermos os detalhes da região, que motivaram o diretor em mais um petardo pacifista que não se desenha como tal por justamente apresentar seus elementos através de uma visão de aparência distorcida para reforçar o esquema trágico por trás do real.

O diretor de Minha Felicidade entre muitos outros, criou um painel sobre a normalidade diária diante do horror, as novas diretrizes em tempos de guerra, os acordos momentâneos que se tornam definitivos e destroem vidas, e que paralelo a isso um véu de naturalismo cobre a atmosfera — sem ser nada natural. Essa é a gênese do olhar desse cineasta para os conflitos da sua própria terra, seu universo político de maneira ampla, um debate que acabe por afetar também outras aldeias através do horror, da identificação coletiva que passe pela exploração do Estado e das ditas forças de segurança. O que deveria proteger, acaba por explorar, diminuir, saquear, empilhar e exterminar de maneira tão igualitária, temas que se repetem em lugares tão diferentes.

Donbass

Prolífico em seu filmografia, Loznitsa contribui para o cinema com uma obra de qualidade reconhecida (esse, por exemplo, ganhou o prêmio de direção na Un Certain Regard, do FEstival de Cannes), construindo uma filmografia coerente e combativa, sem repetir suas formas para contar recortes sociais de profunda opressão. Aqui, vemos nessa modalidade-coral de realização, um amplo conhecimento sobre o espaço em que habita geograficamente no mundo, que precisa ser constantemente evidenciado e denunciado, sem panfletos ou melodrama; o que o mais importante diretor ucraniano persegue é uma visão ácida sobre o apavorante estado das coisas.

A cada nova passagem descortinada em Donbass, temos mais um profundo mergulho na radiografia de doenças sociais causadas por governos invasores e totalitários, na qual são respondidos com igual invasão e totalitarismo. Não há lugar para a revolta ou para a tentativa de justiça, porque todos os lados estão em diferentes níveis do grotesco, do absurdo e da tragédia. A barbárie é apenas mais um dado na rotina de um lugar que convive com a criação de inúmeras formas de tortura diárias – e nem todas são cometidas da maneira “tradicional”. Um retrato corajoso sobre o fim da humanidade, o diretor demole, com seus planos únicos e sua narrativa rascante, todos os códigos que estabelece no início de cada esquete; é, o próprio filme, refém de uma auto destruição observada com profundo enlutamento pelo espectador.

Donbass

Cada passagem não é retomada, e aos poucos o conjunto delas cria uma paleta coletiva e delirante diante de dados muito reais, como a presença de fake news, propaganda deliberadamente equivocada e manipulação de quem tem poder sobre quem não tem – seja qualquer grau de poder. O autor as filma praticamente sem cortes, com a câmera seguindo cada personagem-chave em cada passagem e se perdendo, muitas vezes, entre os cenários naturalmente críveis de cada um deles. Vez por outra, um personagem vaza de uma fôrma pra outra, o que confere unidade ao todo. A precisão da mise-en-scene é da natureza do próprio diretor, mas mesmo quem já o conhece ainda consegue se impressionar com o plano final longuíssimo, ou com o ataque ao preso acusado de fascismo literalmente em praça pública.

Em sua desconfortável narrativa confrontada, onde o que parece certo não é certo como se parece e ainda se desenrola rumo a algo cada vez mais absurdo, Loznitsa propõe um olhar sobre o desacerto sem lados especificados — estão todos errados, em todas as esferas. Que Donbass reflita inclusive a respeito de metalinguagem (encontrando semelhança no que Radu Jude faz em Eu Não me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros) em suas terríveis investigações sobre a desumanidade que nasce da guerra, é a prova de que seu diretor não pretende chocar com o que apresenta, mas, literalmente, nos socar.

Um grande momento
Vários, porém um — o carro roubado, roubado de novo

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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