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Eu Prometo Ser Sensato

Estranhos que se atraem

(Je promets d'être sage, FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Ronan Le Page
  • Roteiro: Ronan Le Page
  • Elenco: Pio Marmaï, Léa Drucker, Mélodie Richard, Gilles Privat, Florence Janas, François Chattot, Céline Toutain
  • Duração: 92 minutos

A estrutura dramática de Eu Prometo Ser Sensato não procura ser inovadora. Temos um evento extraordinário apresentado na primeira cena, que irá definir o desenrolar do que é aparentemente o protagonista do longa, o diretor teatral caído em desgraça Franck. A partir dali e até o final, as molas que impulsionam a trama são reconhecidas com facilidade por um cinéfilo comum. Aos poucos vamos percebendo que isso não é o que se deveria esperar do longa em suas entrelinhas aos sermos apresentados a Franck e posteriormente a Sybille, a partir daí suas personalidades e suas arraigadas idiossincrasias se abrem, e um novo olhar é necessário sobre a obra.

Franck é um diretor de teatro frustrado, que não conseguiu se realizar no que tinha como paixão. Histérico e descontrolado, ele tenta apagar sua mais recente decepção mudando em absoluto de vida ao aceitar uma colocação temporária como guarda de museu. No lugar em questão, ele é apresentado a Sybille, uma mulher muito reservada e introspectiva, porém controladora e avessa ao contato humano tradicional. Duas personalidades fortes que se chocam de cara até se perceberem afins, afinando seus pontos comuns, sua insegurança disfarçada de arrogância, até partir para uma maneira nada comum de interação com o outro, literalmente no improviso.

A estreia de Ronan Le Page no cinema é um apanhado de personalidades irascíveis, elevando seus protagonistas a um extremo de possibilidades bem dosadas, mesmo que provoquem uma certa irritação vez por outra. O jovem autor monta um painel de tipos com tendência a excentricidade mas sem tratá-las de maneira aguda ou maneirista, onde apenas os protagonistas são melhor investigados, deixando pitadas de questões espalhadas por um lado e outro. Se isso agrega benefícios à produção em teoria, na prática parece gratuito que tanto seja apresentado sem maiores detalhamentos, criando um desarranjo.

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Eu Prometo Ser Sensato
Foto: Reprodução

O filme desce fundo junto a seus atores na tentativa de flagrar as estranhezas de duas figuras incomuns tratadas com reconhecimento mútuo e, por isso, uma espécie de trégua e entendimento. Vividos com categoria e assertividade por Pio Marmaï (de Como Virei Super Herói) e Léa Drucker (de Custódia), Franck e Sybille se conectam tão rapidamente por motivos finais muito óbvios, mas esse fim é tão diminuto, que fica claro que o interesse maior do filme era dissecar aquelas pessoas, fazer com que elas se reconhecessem e se completassem em um esquema sob a qual o filme não se alonga em explicar.

Essa ausência de debruçamento narrativo nas jogadas conjuntas de Eu Prometo Ser Sensato é mais compreensível que o apagamento de arredores de seus núcleos, isso porque os próprios personagens parecem perdidos em suas criações, e também porque o filme lida com a ideia de improviso a partir de determinado momento de maneira absoluta. O filme trata a técnica como uma arte a ser aprendida e difundida entre os dois centrais, e a forma que o filme encontra para retratar a ilusão oral como uma técnica para a perda da timidez fascina e conquista o espectador, que segue Franck e Sybille por desventuras muito acidentadas em busca de descobertas de seus próprios limites.

Com muita agilidade e uma montagem especial de Loïc Lallemand (de Divinas) que ajuda a traduzir esse ritmo em uma produção que é muito calcada em um texto de qualidade, Eu Prometo Ser Sensato é um exemplar diferente de comédia francesa, investigando menos preconceitos e fisicalidade, e mais um desenho de personas inusitadas que convergem para um lugar mais clichê. Se não perde a força do todo, já que essa não era o principal interesse do longa, ao menos estaciona uma narrativa que poderia ser ainda mais enriquecida em seus propósitos, que perdem suas potências toda vez que chegam até suas bordas.

Um grande momento
Franck e Sybille irmãos?

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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