Crítica | Streaming

Como Virei Super-Herói

Heróis na Cidade Luz

(Comment je suis devenu super-héros, FRA, BEL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Douglas Attal
  • Roteiro: Cédric Anger, Douglas Attal, Gérald Bronner, Melisa Godet, Charlotte Sanson
  • Elenco: Pio Marmaï, Leïla Bekhti, Vimala Pons, Swann Arlaud, Mehdi Boudina, Benoît Poelvoorde
  • Duração: 97 minutos

A Netflix tem investido com veemência na tentativa de ter uma franquia de heróis, de preferência uma em cada país. Ano passado, com uma diferença de uma semana, ela liberou a versão espanhola (Origens Secretas) e a alemã (Freaks: Um de Nós), suas duas tentativas de tentar capitalizar em cima de um filão que Marvel e DC bebem há décadas – e do qual possuem os direitos de imagem. A estreia de Como Virei Super-Herói colocou também a França nessa briga velada – e bem divertida – pelo posto de representante oficial do serviço de streaming ao Olimpo da cultura pop cinematográfica hoje. Sendo os três bem agradáveis, no final das contas ganhou o espectador – e a própria Netflix.

Como seria tradição, uma adaptação de HQ que se preze (aqui, da novela de Gérald Bronner) trata seu primeiro exemplar como um “filme de origem”, e taí o primeiro grande truque da produção. A origem até está lá, mas não é sobre isso necessariamente que o filme quer tratar, e o espectador que espere a primeira hora se encerrar para que sua base se converta sólida. Até lá, a tradicional narrativa do mundo que convive pacificamente com seres extraordinários mais uma vez dá as caras, outro chavão do gênero. Como o filme consegue explorar outros aspectos de novidade, a produção avança com o charme típico de uma boa comédia francesa.

Como Virei Super-Herói

O diretor estreante Douglas Attal (filho do renomado produtor Alain Attal) também é um dos roteiristas e consegue esse amálgama positivo. Não há algo novo sendo contado, mas o que está em cena é feito com desvelo e genuína curiosidade, tendo a certeza que essa não é uma zona de conforto da cinematografia local, e por isso também seu lugar é especial. Não há, como de costume, um investimento absurdo em valores de produção como um típico blockbuster hollywoodiano, mas temos efeitos muito dignos usados com acertada discrição, ação bem conduzida e uma trama extremamente simples para dar conta também do material humano envolvido.

Infelizmente esse caráter em particular é dedicado totalmente aos mocinhos, e as camadas de cada um se revelam também para privilegiar o trabalho de um grupo de atores dedicado a empregar seus nomes a um produto de qualidade. O grupo de vilões é apenas um risco de estereótipo, um super vilão que deseja algo que não é muito bem esclarecido, sem qualquer substância dramática. Mas se falta dramaticidade aos vilões, seus métodos (o tráfico de poderes para pessoas que não os tem) é uma sacada incrível da narrativa, abrindo o que poderia ser uma discussão muito instigante sobre distribuição de poder não apenas àqueles que os herdaram, mas também a quem simplesmente os deseja; porque o ser humano não pode sonhar ser um super-herói?

Como Virei Super-Herói

Ainda que esse tema não seja destrinchado, o filme realiza o que sua natureza pede de maneira suave, sem esgarçar suas potências. Bem montado e muito divertido no gênero que se propõe, Como Virei Super-Herói, no entanto, não consegue se livrar de algumas inconsistências de roteiro, como explicar o que acontecerá no próximo minuto através de uma satisfação verbal dada muito providencial, sem qualquer naturalidade. Esse é o principal escorregão de um filme que se esforça para cumprir tudo a que se propõe, e eventualmente consegue graças aos esforços coletivos de todos os envolvidos na produção, principalmente seu elenco.

Quando poderíamos imaginar premiados atores europeus como Benoît Poelvoorde (de Românticos Anônimos‘), Leïla Bekhti (de A Fonte das Mulheres), Swann Arlaud (de Graças a Deus), Clovis Cornillac (de Infância Roubada) e o protagonista Pio Marmaï (de Finalmente Livres!) se acabando em uniformes, voando e disparando raios de efeitos especiais uns contra os outros? Como Virei Super-Herói cumpre o papel que imaginamos que a Netflix estaria esperando, de motivar o público a continuar sua busca pela franquia perfeita. Douglas Attal conseguiu alguns pontos na estreia, e seu grupo de performers o ajudou a vencer esse jogo.

Um grande momento
O sequestro de Moreau

Fotos: © Shanna Besson

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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