Crítica | Streaming

Origens Secretas

(Origenes secretos, ESP, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: David Galán Galindo
  • Roteiro: Fernando Navarro, David Galán Galindo
  • Elenco: Verónica Echegui, Leonardo Sbaraglia, Javier Rey, Álex García, Ernesto Alterio, Carlos Areces, Brays Efe, Antonio Resines, Roman Rymar, Rodrigo Poisón, Fran Bleu
  • Duração: 96 minutos
  • Nota:

Dizem por aí que sou ‘nerd’, mas não um autêntico, daqueles de carteirinha – eu não curto HQs e nem espero ansioso pelas adaptações cinematográficas das mesmas que infestam o cinema há 20 anos; não sou fã de transposições de livros de fantasia para as telonas e telinhas, como O Senhor dos Anéis e Game of Thrones; não cresci vidrado no cinema blockbuster em geral, embora tenha carinho gigante por coisas como De Volta para o Futuro‘. Porque então será que terminei Origens Secretas, nova produção Netflix que acaba de chegar ao streaming, muito emocionado e plenamente satisfeito?

David Galán Galindo escreveu a novela em que se baseia, adaptou seu livro ao lado de Fernando Navarro e dirige um filme que, na falta de uma palavra melhor ou menos clichê, é incrivelmente surpreendente. De maneira bem modesta, se apresenta como uma brincadeira inofensiva em torno de um policial que precisa da ajuda de um especialista em quadrinhos (ou melhor, um ‘nerd’ com tudo que ele tem direito) para solucionar crimes que parecem inspirados nas origens dos mais famosos super-heróis da história. Se fosse estritamente isso, a simpatia pelo projeto já existiria, e por fãs dos mesmos ainda maior.

Origens Secretas (2020)

Mas a obra em questão, no que tange tudo que Galindo talhou, de uma mídia para outra, era utilizar inúmeros elementos, referências, brincadeiras e pegadinhas muitas vezes sutis (a cena que ele replica a tradicional aparição de Stan Lee nos filmes do MCU é o primeiro indício de um imenso carinho do realizador), pretende mesmo ela ir além das possibilidades enquanto homenagem e passatempo: a idéia de criar sua própria mitologia, que se disfarça de brincadeira para aos poucos enraizar suas intenções, é muito bem sucedida.

Estamos falando de uma produção espanhola, então obviamente não é uma superprodução de 250 milhões de dólares, mas sua proposta que se apresenta realista para aos poucos se embrenhar num discurso de inclusão com o gênero que abraça propõe um olhar mais econômico para o projeto, o que apesar de tudo nunca se transparece como um problema, pelo contrário; há uma intenção de tornar Origens Secretas um filme mais custoso conforme avança terreno, e de fato isso é conseguido.

Origens Secretas (2020)

Aos poucos o filme vai desenhando uma situação que, com o perdão da comparação, poderia ser interpretada como uma versão leve e despretensiosa de Corpo Fechado, mas o filme em determinado momento assume personalidade em seu desenvolvimento e alça voos particulares. Ainda que ao fim e ao cabo esteja ele próprio a um só tempo satirizando e criando um “filme de origem” (muito claro desde que somos apresentados aos detalhes do passado do protagonista David), as soluções que ‘Origens Secretas’ apresenta são muito diretas e conectadas com um arco típico, de construção de arquétipo, mensagem pertinente ao nosso tempo e que ainda se preocupa em encaixar todos as peças do quebra-cabeça.

A emoção se dá pelo afinco em que elabora seu painel, tanto técnica quanto narrativamente. Em curta duração, o filme consegue nos envolver em sua aparente piada para descortinar gradativamente um coração muito grande pelo seu objeto de foco e pesquisa. Com muito charme, o que se apresenta como uma paródia muito delicada se traveste de material de exemplo pra própria tese, sempre com muita elegância e respeito. O filme em nenhum momento engana o espectador (veja como eles criam uma apresentação aos crimes no estilo de Seven, mas não deixam passar essa referência, ao mesmo tempo em que ela não é esfregada na cara do espectador) ou trapaceia; apenas desenvolve suas intenções em camadas.

Origens Secretas

O elenco é muito eficiente, conta com participações incríveis como a de Leonardo Sbaraglia e Ernesto Alterio, até os nomes centrais, como o do protagonista Javier Rey (de O Silêncio da Cidade Branca), o grande destaque de um grupo muito coeso. Ele tem o papel mais ingrato, o mocinho engomado e certinho, que nunca parece chato ou repetitivo em sua correção, mas que se prepara para um momento crucial. Ao seu lado, Brays Efe constrói de maneira muito comprometida seu contraponto, o típico nerd estereotipado e que tem um discurso exatamente em relação ao estereótipo.

Dotado de grande sensibilidade pra tratar de um universo no qual ele entende ser muito sério para muita gente, Galindo faz de seu Origens Secretas uma forma de cutucar a situação político-social da Espanha hoje, tão desamparada que está à mercê de eventos como o filme sugere, além de ser uma linda carta de amor a fãs como ele próprio, que entende bem o lugar do qual fala. Daí vem a emoção, ao perceber que não apenas um belo filme nasceu, como também alguém tão cuidadoso concebeu uma obra onde sobra alma, num lugar onde muitas vezes isso está em falta; ao final, a torcida por mais. Vida longa ao V. ;)

Um grande momento
Dias de um Futuro Esquecido.

Ver “Origens Secretas” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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