Crítica | CinemaDestaque

Viúva Negra

Família ê, família ah, família

(Black Widow, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Cate Shortland
  • Roteiro: Eric Pearson, Jac Schaeffer, Ned Benson
  • Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, Rachel Weisz, David Harbour, Ray Winstone, Ever Anderson, Violet McGraw, O-T Fagbenle, William Hurt
  • Duração: 133 minutos

Natasha Romanoff, a espiã soviética de várias origens no quadrinhos que se tornou uma das personagens mais carismáticas dos Vingadores nos cinemas, finalmente ganhou um filme só para ela. Viúva Negra, depois de vários adiamentos por conta da pandemia Covid-19, chega agora aos cinemas e ao Disney+, (Premier Access), contando como tudo começou. Sem deixar a desejar na ação, já que a espionagem e o treinamento de armas humanas é fundamental para a personagem, o caminho do filme é o da família. Entre lutas, tiro, porrada e bomba, é no apelo do núcleo familiar de Natasha e Yelena que a diretora Cate Shortland (Lore) finca sua âncora.

Unindo sua trama às ações dos filmes anteriores apenas por citações, o longa resgata os eventos do Red Room num prólogo eficiente e não óbvio. As irmãs viúvas são apresentadas ainda crianças em uma missão com Melina e o Guardião Vermelho, e uma colagem ambienta o espectador sobre o programa, a influência do vilão Dreykov e a elipse temporal que levará à trama atual. Tudo é muito orgânico e funcional. No desenvolvimento da ação, o roteiro assinado por Eric Pearson (Thor: Ragnarok), Jac Schaeffer (WandaVision) e Ned Benson (Os Dois Lados do Amor), não tenta inventar a roda e mantém o equilíbrio entre adrenalina e humor que tornou a Marvel o fenômeno que é hoje.

Viúva Negra

Se há uma inovação no quesito, e esta é muito bem-vinda, é como os confrontos são absolutamente reconfigurados. Aqui, tendo uma heroína mulher, que se une a outra para derrotar um arqui-inimigo que usa meninas como armas, a maioria das lutas são entre elas. Em coreografias requintadas no tête-à-tête, e invasões, perseguições e fugas elaboradas, são as mulheres que dominam as cenas e não precisamos ver, mais uma vez, protagonistas apanhando de homens sem parar, com câmeras que parecem se deleitar com isso.

Shortland capricha na ação, com sequências prolongadas que ela ainda faz questão de destacar com a trilha orquestrada e cheia de coros de Lorne Balfe. Para dar o respiro à tensão, a diretora australiana tem o encontro de Scarlett Johansson e Florence Pugh como as duas irmãs que têm toda uma demanda reprimida de implicância para descontar depois de tanto tempo sem se ver. Se Johansson parece não fazer muito mais do que já vimos antes, Pugh tem ótimos momentos como Yelena, e as duas atrizes funcionam bem juntas. A dupla ganha um bom reforço com a chegada de David Harbour e Rachel Weisz.

Viúva Negra

Entre todas as suas explosões e correrias, Viúva Negra encontra um espaço no núcleo restrito para criar uma relação inesperada entre aquelas pessoas e uma dinâmica de passado que permite falar de questões completamente alheias ao gênero cinematográfico que pertence. Toda a discussão na mesa, das costas curvadas ao desabafo de Yelena, é tão não-super-herói que dá gosto de ver. É ali também, entre aquelas quatro pessoas, que o roteiro consegue uma brecha para fazer a sua brincadeira com o masculino e o feminino e com limitações e superioridades não reconhecidas. 

Em um universo tão dominado por homens como o das produções de super-heróis, Viúva Negra chega como um filme diferente, pois realmente se digna a tentar fazer algumas modificações em estruturas que sempre foram mantidas imutáveis. Preserva a ação e a entrega a mãos femininas, no comando e na execução, e dá uma profundidade sentimental às relações que não tem nada a ver com romance. 

Um grande momento
A pose

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo