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O Homem Água

Tempos juvenis

(The Water Man, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: David Oyelowo
  • Roteiro: Emma Needell
  • Elenco: Rosario Dawson, Maria Bello, Alfred Molina, David Oyelowo, Amiah Miller, Jessica Oyelowo, Lonnie Chavis, Ted Rooney, Adam Dunlap, John Henry Whitaker
  • Duração: 91 minutos

David Oyelowo, 45 anos, cresceu nos anos 1980 como eu, o que significa ter tido uma infância embalada por E.T., Os Goonies, Caravana da Coragem, Conta Comigo, Viagem ao Mundo dos Sonhos e tantos outros exemplares de fantasia juvenil utilizada para representar lares desfeitos, entrada na puberdade, perda da inocência. Um artista sensível que tenha a visão marcada por esses elementos na primeira idade é capaz de nos presentear com algo como O Homem Água, suas referências, seu carinho a embalar uma trama envolvente, repleta de delicadas lições e de construção cinematográfica tão cuidadosa que essa estreia na direção já o revele maduro.

Conhecido por títulos como Selma e O Céu da Meia-Noite, Oyelowo tem tido presença constante esse ano e acabou de também se mostrar em outra reapropriação fabular, Alice e Peter, onde as tramas do País das Maravilhas e da Terra do Nunca tentaram se fundir. Aqui, o roteiro da igualmente estreante Emma Needell passeia por esse espírito oitentista para nos deslocar do hoje para o ontem em inocência e pureza. Não são apenas as intenções narrativas que prezam pela aproximação com esse grupo de obras, mas a forma como o filme escolhe estar anacrônico em seu estado de espírito.

O Homem Água

Seria cômodo ambientar O Homem Água no passado como Stranger Things faz, mas a opção da obra é imaginar um tempo presente onde a leitura analógica seja mais importante que a tecnologia, onde o papel e o lápis seja mais relevante que o WhatsApp, onde o celular seja trocado por uma bússola, e onde as amizades verdadeiras… bom, essas não são mesmo conseguidas online, na ficção ou fora dela. O universo sugerido por Oyelowo e Needell não abre mão dessas informações pontuais, mas é consciente em escolher uma via paralela à modernidade, onde conseguimos observar através dessa decisão criativa as inserções para o mundo da imaginação, possível quando se elimina a malícia da equação.

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O poder da crença é celebrado na obra, onde o protagonista é justamente o embrião de um artista visual que vive um conflito em casa no início da adolescência. Pai ausente e mãe enferma, Gunner encontra refúgio nas páginas em branco da graphic novel que escreve, onde um detetive particular acaba de descobrir que foi assassinado. Esse é um ponto de partida que, como outros tópicos da trama, serão aprofundados sem que o público perceba a princípio, tamanha é a fluidez do roteiro e da sedução da obra, que nos leva pra seu desenrolar e muito gradativamente vai revelando “os truques do mágico” espalhados em sua duração – se não estiver com muita atenção, a revelação dos elementos é muito sutil.

O Homem Água

O tom de fábula que corre abertamente não tem qualquer tentativa de modernização, o lúdico está presente na fotografia, na ambientação selvagem e nos bons sentimentos que exalam de todos os personagens, o que não resulta em filme ingênuo. Em tempos cínicos como os de hoje, um filme como O Homem Água pode afastar o público mais imediatista, mas a montagem de Blu Murray (de Vidro e Sully) carrega dinamismo à produção, que nunca cria barreiras desnecessárias ao roteiro. Com clareza na condução, talvez o único problema – se é que isso se configura como tal – seja o excesso de simplicidade, que revela um longa talvez ainda mais infantil.

O elenco com um punhado de rostos de talento garantido (além do próprio Oyelowo, Rosario Dawson, Alfred Molina e Maria Bello), mas são os jovens Lonnie Chavis e Amiah Miller as grandes estrelas da produção e os responsáveis pelos principais holofotes e pelo carisma que ambos emprestam, para fazer desse estreante na direção uma surpreendente pedida para que possamos voltar mais do que à juventude, mas principalmente a um tempo de doçura e gentileza, regados por um delicioso anacronismo e uma insuspeita elegia ao espiritualismo

Um grande momento
Encontrando a cabana

Fotos: Karen Ballard / NETFLIX © 2021

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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