Crítica | Streaming

O Céu da Meia-Noite

Céu e terra unidos na repetição

(The Midnight Sky, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama, Ficção científica
  • Direção: George Clooney
  • Roteiro: Lily Brooks-Dalton, Mark L. Smith
  • Elenco: George Clooney, Felicity Jones, David Oyelowo, Kyle Chandler, Demián Bichir, Tiffany Boone
  • Duração: 125 minutos

É difícil olhar para O Céu da Meia-Noite e enxergar algo novo. A nova produção da Netflix, que chega com o pedigree de ser dirigido e estrelado pelo duas vezes vencedor do Oscar George Clooney (por Syriana e por Argo, onde era um dos produtores). Tudo que a produção agrega não passam de mensagens, cenas, conflitos e reflexões já vistos em ficções científicas desde que as primeiras foram escritas e posteriormente encenadas. Nada disso opera em registro deficiente, pelo contrário, mas tudo que tenta esconder do espectador se mostra desnecessário tendo em vista que seu desenrolar avança sobre rumos já vistos com muita frequência. 

O Céu da Meia-Noite, de George Clooney

A solidão melancólica que geralmente acomete personagens em isolamento pós-desastre é também ela uma característica comum ao gênero ao menos desde que assistimos a 2001 e Solaris, o segundo inclusive refeito por Steve Soderbergh e protagonizado pelo mesmo Clooney. É como um grande déjà vu que o ator, aqui em tripla função reafirma junto às tradições de códigos empregados em congêneres, aqui dividida em duas narrativas que só finalmente convergem no clímax e que desenvolvem duas vertentes da ficção, cuja integração funciona como mote principal sem jamais deixar de reverberar suas repetições. 

Além do lugar comum que a produção baseada no livro de Lily Brooks-Dalton apresenta diante dos desastres que levam a possíveis migrações extraterrenas e a busca por vida inteligente em planetas outros que não a Terra, o filme ainda se desenvolve de maneira preguiçosa na maior parte do tempo, sem delimitar a contento os blocos narrativos que se acumulam: existe o presente do espaço, o presente do planeta, flashbacks para ambos, além dos delírios que vez por outra invade cada espaço cênico. Não teria nenhum problema em apresentar camadas que desenvolvessem suas personagens, mas faltou textura para organizar tantas passagens disparatadas.

O Céu da Meia-Noite, de George Clooney

A montagem de Stephen Mirrione (Oscar por Traffic) não consegue criar coesão no material apresentado nem desenvolver ritmo adequado para o todo, ora acelerando os eventos ora entorpecendo o quadro geral de tempos mortos (inúteis?) que incham a duração e emperram o ritmo. Ainda que o roteiro de Mark L. Smith não amalgame os elementos humanos na produção geral, deixando os excessos correrem soltos no filme, o resultado decepcionante parte também da decisão de debruçar-se sobre esse material requentado, sem lapidar seus elementos a ponto de oferecer um recorte relevante a respeito da formação de famílias em meio ao horror. 

Esse deveria ser o ponto nevrálgico de O Céu da Meia-Noite, que posiciona essas novas famílias nucleares em disposições à sobrevivência diante da adversidade extrema. Embora lide com os elementos dispostos com empenho, falta detalhamento narrativo que faça com que o espectador se envolva com uma história que deveria também envolver – sozinho e sem direcionamento, o bom elenco não consegue seduzir com os dados que recebem, e se mostram insuficientes. Se o ator Clooney é o profissional que mais corresponde às exigências do diretor Clooney, seu desempenho não consegue dar unidade ao resto do grupo, que não é tão aprofundado. 

O Céu da Meia-Noite, de George Clooney

Com um visual que muitas vezes enche os olhos, o filme é a prova que isso não é suficiente quando o resto parece tão genérico. É o suficiente para garantir o interesse do público em torno da produção, mas não é para convencer o mesmo que se trata de um projeto que o arrebate por completo. O Céu da Meia-Noite, com suas inúmeras possibilidades de reescrever os caminhos já percorridos por outras produções, aceita ser mais uma e se mostrar absolutamente reciclado, apesar da embalagem vigorosa. 

Um grande momento

A perfuração

Ver “O Céu da Meia-Noite” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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