Crítica | Cinema

Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos

E se Alice Liddell tivesse crescido, casado e tido três filhos chamados John, Michael e Wendy?

(Come Away, GBR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Brenda Chapman
  • Roteiro: Marissa Kate Goodhill
  • Elenco: Gugu Mbatha-Raw, Carter Thomas, Ava Fillery, Jonathan Garcia, Keira Chansa, Jordan A. Nash, David Oyelowo, Angelina Jolie, Reece Yates, Jenny Galloway, Anna Chancellor, Michael Caine
  • Duração: 94 minutos

Com uma premissa excelente, Alice e Peter: Onde nascem os sonhos, primeira investida da animadora e cineasta Brenda Chapman (de Valente) em live-action, tinha absolutamente tudo para funcionar como um clássico moderno – uma prequel de Peter Pan e Alice no País das Maravilhas – porém, devido a um roteiro que não é robusto, sustentado por uma direção pálida, naufraga tristemente. 

Em 1904, J.M. Barrie e Andy Mangels apresentaram pela primeira vez a peça teatral Peter and Wendy. Ao longo do século 20, a obra, posteriormente transformada em livro por Barrie, seria adaptada para o cinema em sete ocasiões, com mais uma a caminho a cargo da Disney. Já aquela que se tornaria a obra da vida do estranhíssimo Charles Dodgson, mais conhecido por Lewis Carroll, fora publicada ainda no século 19 e desde então povoa o imaginário coletivo ocidental, tendo como contratantes cinematográficas a versão lisérgica da Disney e as duas adaptações idealizados por Tim Burton.

Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos

Em 2004, Marc Foster dirigiu outro filme de época que reimaginava a vida do autor de Peter Pan a partir do encontro dele com uma família de crianças inspiradoras. Tão quadrado quanto este filme de Chapman, pelo menos Em Busca da Terra do Nunca tinha no carisma de Freddie Higmore e Kate Winslet sua tábua de salvação. O elenco de Alice e Peter é, no papel, tão ou mais maravilhoso quanto: os pais são vividos por David Oyelowo e Angelina Jolie; os protagonistas são defendidos por Keira Chansa e Jordan A. Nash e a história é narrada por Gugu Mbatha-Raw, mas talvez pela falta de uma direção mais inspirada, a narrativa do filme de fantasia invés de engajar logo esvanece. 

Os mundos oníricos, que são o refúgio dos meninos Peter e David e da menina Alice, não são, na mise en scène, tão elaborados e mágicos quanto aqueles pensados por Walt Disney e as mentes criativas do estúdio do Mickey que conceberam as duas adaptações feitas nos anos 50, por exemplo. Em Alice e Peter o fascínio infantil está na fala das crianças, na narração em off, mas não está onde mais deveria: traduzido em imagens. 

O menino que não queria crescer malmente dialoga com os signos e símbolos da Terra do Nunca, apesar de iconograficamente ser interessante a reimaginação do Capitão James Hook (Gancho), falta mais um pouco de imaginação para incorporar a fábula ao ethos daquele tempo — talvez a Inglaterra Vitoriana de Carroll? 

“Por causa dos meus irmãos eu nunca me esqueci de como sonhar”

De outro lado, vislumbrada na montagem cinematográfica em paralelo às incursões de Peter Pan em navios piratas com os Garotos Perdidos, os passeios de Alice pelo País das Maravilhas são fugazes e pouco impactantes. Um dos raros momentos em que o filme fabula sobre o fim da inocência de forma acertada é quando Alice já adulta rememora as brincadeiras com os irmãos, mas não se lembra do caminho até a toca do coelho ou do cheiro do mar nas praias da Terra do Nunca. 

Alice e Peter: Onde Nascem os Sonhos

Pena que nem todo o estoque de pó de pirlimpimpim existente nem os biscoitos e os chás do País das Maravilhas são suficientes para dotar de encantamento o filme, que carece demais de inspiração. Chapman não assina o roteiro, os créditos da adaptação vão para a novata Marissa Kate Godhill — que precisa urgentemente se conectar com a sua criança interior, pois circunstancialmente é de se observar que a grande falha de Alice e Peter está na estruturação da trama.

A jornada das duas crianças em Alice e Peter poderia ser uma fábula memorável — mesmo que esteticamente convencional — sobre a fragilidade da inocência perante uma realidade difícil de lidar e a manutenção do espírito juvenil sonhador. Ao invés disso, é permeada por atravessamentos bruscos, como a morte de um ente querido e a falência financeira familiar, além dos conflitos entre a mãe deles e a tia rica. Não há fluidez entre esses momentos e os delírios nos mundos dos sonhos, o que faz, no fim do faz-de-conta, o filme palidamente se tornar esquecível.

Um grande momento
Alice vendo os filhos criarem asas.

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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