Crítica | Streaming

Freaks: Um de Nós

(Freaks - Du bist eine von uns, ALE, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Felix Binder
  • Roteiro: Marc O. Seng
  • Elenco: Finnlay Berger, Thelma Buabeng, Gisa Flake, Cornelia Gröschel, Ralph Herforth, Nina Kunzendorf, Frederic Linkemann, Tim Oliver Schultz, Wotan Wilke Möhring
  • Duração: 92 minutos
  • Nota:

Menos de uma semana depois da estreia de Origens Secretas, a Netflix disponibiliza no seu streaming mais um filme europeu cujo mote, inspiração e desenvolvimento é o universo das histórias em quadrinhos. Freaks: Um de Nós é uma produção alemã que corre o risco de ser ofuscada pelo título espanhol, muito bem sucedido em seu lançamento, ou provocar o contrário, e são dois filmes tão cheios de qualidades que nos resta lamentar essa estratégia de lançamento mal pensada, onde uma pode canibalizar a outra; minha dica é não deixar passar nenhum dos dois.

Na tela, o longa dirigido por Felix Binder não comporta tanta originalidade quanto a produção espanhola; na verdade, Freaks em muito se assemelha em uma aventura de origem de alguns X-Men, onde pessoas literalmente comuns (alguns comuns até demais) descobrem não apenas que possuem um poder secreto como também uma trama para que sejam não apenas silenciados como também amortizados em seus dons. Com um universo amplo de possibilidades, mesmo os poderes apresentados por três de seus personagens soam “comuns”, no sentido de serem variações de tantos heróis que já vimos.

Freaks: Um de Nós

Ainda que sua apresentação e conceito de universo não desenvolva nenhum teor fresco, a produção alemã entretém de maneira muito consistente, envolve com valores de produção competentes, e chega a confundir o espectador (ainda que muito rapidamente) a respeito das reflexões da protagonista Wendy e sua percepção ao admirável mundo novo que a cerca. É um passatempo de muita qualidade que não tenta passar por mais esperto ou inteligente do que é. Talvez mesmo essa inspiração Marvel quase deva ser encarada como uma versão estrangeira do mesmo universo.

Mesmo a moral de Freaks baseia-se em conceitos já vistos anteriormente em muitas HQs, tais como a incredulidade inicial que se transforma em deslumbre posterior, seguido de preocupação sobre o próprio lugar no mundo por fim, para descambar no lugar onde se separam os que farão de tudo para serem reconhecidos dos que só querem aprender a lidar com uma realidade incomum, Assim como nos originais americanos, “grandes poderes geram grandes responsabilidades” (eu sei que essa fala é do Peter Parker aracnídeo) e será preciso ponderar os ganhos e as perdas para poder seguir.

Freaks: Um de Nós

O elenco conduz muito bem a narrativa, com talento e muita sinceridade. Cornelia Groschel transita entre a estupefação e a retidão com que encara seu futuro, passando pelos conflitos de sua Wendy com entrega genuína. Tim Oliver Schultz trabalhou com Binder na sua estreia na direção e aqui compõe um Elmar milimétrico na exposição e nas camadas que seu personagem desenvolve, com decisões muito acertadas. Frederic Linkmann é a nossa ligação com a inocência nesse roteiro, seu Lars emociona na dedicação que demonstra ter pela esposa.

Com uma figura feminina no centro de uma trama geralmente empreendida por homens e que tenta incutir na narrativa contradições e temas contemporâneos, além das questões envolvendo relações familiares, para tornar a experiência do filme completa. Talvez uma duração um pouco maior fosse necessária para desenvolver ainda mais algumas nuances de tratamento humano e alguns questionamentos emocionais da trama, mas Freaks: Um de Nós passa com louvor na janela aberta (escancarada?) rumo à criação de uma epopeia particular de heróis e vilões, com sabor de chucrute.

Um grande momento
Mãe e filho à beira da piscina

Ver “Freaks: Um de Nós” na Netflix

Fotos: David Dollmann

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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