Crítica | Streaming

Filha de Kamiari

A magia que atropela o cotidiano

(神在月のこども, JAP, 2021)
  • Gênero: Animação
  • Direção: Takana Shirai
  • Roteiro: Ryūta Miyake, Tetsuro Takita, Toshinari Shinohe
  • Duração: 98 minutos

Dos grandes exportadores de imagens no mundo, os japoneses talvez sejam os que mais sabem valorizar as culturas e mitologias milenares de sua terra, sem deixar de mesclá-las aos conflitos e realidades contemporâneas. Na nova estreia da Netflix, o anime Filha de Kamiari, essa tendência se torna bem perceptível. Dirigido por Takana Shirai e bancado a partir de três campanhas de financiamento coletivo, o longa acompanha os dramas da jovem Kanna (dublada por Aju Makita) aproximadamente um ano depois da morte de sua mãe, Yayoi (Ko Shibasaki). 

Influenciada pela mãe, uma corredora exímia, a garota sempre adorou correr pelas matas e trilhas da região em que vive, chegando a se destacar na equipe de atletismo de sua escola. Mas a dor do luto sempre a acompanha, como uma nuvem de mofo escura, pairando sobre a cabeça de Kanna durante as tediosas aulas ou sempre que ela se isola no quarto do pequeno apartamento que divide com o pai, um homem atencioso que faz tudo pela filha. Como todas as adolescentes nessa idade (principalmente as de animes e mangás), Kanna quer mais. Não aguenta a vida que tem levado, e o trauma da morte da mãe torna tudo ainda mais insuportável.

Filha de Kamiari
Liden Films

No dia de uma esperada maratona, quando nuvens de chuva encobrem o céu de Tokyo, Kanna é tomada por uma raiva repentina e abandona a prova, sai correndo pelas ruas da cidade. Aos prantos, ela tira do bolso uma pulseira que pertencia à mãe e quando a coloca no braço, boom. O tempo ao seu redor para, as gotas de chuva flutuam imóveis no ar. Kanna fica estupefata, não entende o que passa. Eis que surgem as duas criaturas que movimentam toda a trama: uma coelhinha branca falante chamada Shiro (dublada por Maaya Sakamoto) , e o demônio (por falta de uma tradução melhor) Yato (Miyu Irino). Depois de um conflito inicial, Shiro explica que Kanna precisa partir em uma jornada que acontece há milênios durante o período de Outubro, em que uma corredora habilidosa deve recolher oferendas de vários deuses em distintas regiões e levá-las até Izumo, uma terra sagrada onde o banquete dos deuses acontecerá.

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Representar a magia não é algo simples, e por vezes o filme apresenta certa inconsistência nas animações, que têm traços bem ocidentalizados, meio puxados para o cartoon, e que são bastante fluidos e orgânicos em alguns momentos, mas em outros se tornam meio travados, como se tivessem sido pouco lapidados. No entanto, como um bom filme de jornada e magia, Filha de Kamiari apresenta uma trama fantástica e envolvente, capaz de agradar pessoas de todas as idades e claramente inspirada no ethos das obras do Studio Ghibli (o qual consegue capturar bem em algumas cenas).

Filha de Kamiari
Liden Films

Os encontros com os deuses são os pontos altos de Filha de Kamiari, assim como os comentários sobre o distanciamento da cultura japonesa de suas raízes ancestrais e mitológicas, milenarmente focadas na conexão com o cosmos e suas criaturas naturais e sobrenaturais. Em determinada cena, uma das personagens fala algo sobre como os deuses nascem a partir da interação dos humanos entre si ou com a natureza. Acho incrível esse tipo de pensamento de algumas culturas orientais, que respeitam o encontro como a verdadeira fonte de fantasia do mundo. E adoro filmes em que a magia simplesmente se embrenha e atropela o cotidiano.

Um grande momento
O encontro com o deus-dragão

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Marcus Benjamin Figueredo

Marcus Benjamin Figueredo é corintiano, cineasta e jornalista, filho da UnB. Também é pesquisador e já atuou como montador de clipes musicais, produtor, curador e membro do júri em festivais de cinema universitário e roteiro. Gosta de sinuca.
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