Crítica | Streaming

Fogo Cruzado

Polícia e bandido

(Copshop, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Joe Carnahan
  • Roteiro: Kurt McLeod, Joe Carnahan, Mark Williams, Kurt McLeod
  • Elenco: Gerard Butler, Frank Grillo, Alexis Louder, Toby Huss, Chad L. Coleman, Ryan O'Nan, Jose Pablo Cantillo, Kaiwi Lyman, Robert Walker Branchaud, Marshall Cook, Tracey Bonner
  • Duração: 107 minutos

Sabe um daqueles thrillers policiais onde não sabemos muito bem quem é quem, quais são as reais intenções da maioria dos personagens, em que condições uns trairão os outros (mas isso acontecerá mais cedo ou mais tarde), ou seja, um filme onde tudo pode acontecer? Fogo Cruzado, estreia de hoje do Amazon Prime Video, é um desses títulos, mas não necessariamente um da ala dos bem sucedidos. No meio de tanto “ladrão que rouba ladrão…”, mesmo o espectador mais familiarizado com tal narrativa e suas muitas reviravoltas, se sentirá compelido a sentir cansaço diante dos excessos aqui mostrados; esse tipo em português genérico cai bem no contexto geral.

Joe Carnahan é um exímio construtor de imagens poderosas, que costuma investir em um sistema de tensão que permeie sua narrativa de ponta a ponta. Há 20 anos, ele rasgava o cinema com Narc, uma produção que ele nunca conseguiu repetir, mas cujo brilho foi tão evidente que seu diretor nunca saiu de um posto intocado. Aqui vemos sua habitual tradição para reunir grandes elencos e conjurar tensão a partir da reunião de tantos polos de ação, presente sempre em seus títulos. Desse jeito, ele prende o público em uma constante atenção para todos os seus elementos em cena, prestes sempre a reconfigurar o entendimento de seu roteiro.

Fogo Cruzado demora um pouco para engrenar, e tem quase a sua totalidade ambientada em uma delegacia de polícia ocupada por todo os tipos possíveis. Indo de policiais, lógico, a também bandidos, corruptos, assassinos profissionais, mercenários, psicopatas, ou seja, toda a sorte de criaturas, dentro e fora da lei. Essa restrição espacial confere um caráter mais investigativo do que pede um longa de ação, necessariamente. Não é por isso, no entanto, que estamos diante de uma produção mais reflexiva, com a cara de Carnahan; trata-se de uma obra repleta de bom humor e agilidade possível, carregando em ritmo verbal o que pudesse vir a faltar no tratamento da edição.

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O trabalho de Carnahan enquanto realizador, dessa vez, não tem o brilho de seus melhores momentos, porque investe em excesso de situações repetitivas, já desde a premissa. Ao encerrar seu universo em um espaço fechado e que não garante muita mobilidade para exploração cênica, o diretor acaba por não dispor de elementos para explorar, fechando seu interesse na maior parte do tempo na interação entre o elenco. Embora sempre sua direção de elenco seja bastante acima da média, fica a ausência de uma elaboração estética mais arrojada, como é de sua tradição. Se não tira o interesse do filme, por sua vez, o mesmo não explora as principais características do seu autor.

O que garante grande parte do carisma da produção é o grupo de personagens criado para a trama se desenvolver. Com muito comprometimento, o elenco está à vontade para desenvolver um grupo de tipos dos mais deliciosos. Desde os protagonistas Gerard Butler e Frank Grillo até todos os coadjuvantes, o filme empolga e nos insere nessa sucessão de clichês sem vergonha e que ganham força pela imposição desse grupo de atores. Do sósia de Russell Crowe fora de forma Ryan O’Nan até o delegado vivido por Chad L. Coleman, os olhos do espectador ficam grudados em cada um em cena, todos com a função de entreter e forrar o filme com muita expressividade.

Mas nada nos prepara para os trabalhos de Alexis Louder e Toby Huss. Ela faz a mocinha do filme e encanta do início ao fim; destemida e ousada, sua personagem é um poço de assertividade, e a atriz conta essa história com muita verdade. Não há medo de parecer positiva em excesso porque se trata de uma figura envolta pelo Mal, que luta para ser superior o tempo inteiro. Já Huss interpreta uma das figuras mais asquerosas do cinema em bastante tempo, uma figura repugnante pelo qual o público terá muito prazer em torcer contra. Sua entrada em cena reintroduz gás ao filme e nos faz revirar de nojo – sinal de um trabalho realizado à perfeição. Carnahan deve muito a essas pessoas.

Um grande momento
“Isso é um psicopata”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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