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Fúria Incontrolável

Nada além de um bom saco de adrenalina

(Unhinged, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Thriller
  • Direção: Derrick Borte
  • Roteiro: Carl Ellsworth
  • Elenco: Russell Crowe, Caren Pistorius, Gabriel Bateman, Jimmi Simpson
  • Duração: 90 minutos

Com sinopse e título em português em mãos, é fácil associar esse ‘Fúria Incontrolável’ a um inevitável (e possível) remake/reimaginação para o “clássico” noventista ‘Um Dia de Fúria’, que o saudoso Joel Schumacher levou ao Festival de Cannes de 1993 para exibir um descontrolado Michael Douglas diante do estresse da vida urbana. Imagina se esse personagem estivesse vivendo em 2021 e talvez cheguemos perto do que é o tipo vivido por um irreconhecível Russell Crowe, em um filme que parte de uma premissa similar à do título citado para se tornar um thriller muito mais simples do que poderia ter sido, simplicidade essa que também se abate em determinado momento no longa de 30 anos atrás.

Em uma abertura explicativa que entrega uma quantidade exorbitante de motivos para justificar atos cada vez mais antissociais da modernidade, tais como a falta de educação no trânsito, a cada vez mais escassa paciência, a ausência de empatia em contextos cada vez maiores, o filme cria uma cama de proteção a um personagem que já se apresenta em um típico e infelizmente corriqueiro ato extremo de feminicídio, ao assassinar a ex-esposa e seu atual companheiro com requintes de crueldade, logo é difícil para o espectador se relacionar com ele de qualquer, e distanciar seu julgamento quando a protagonista o agride verbalmente em via pública; temos de um lado uma mocinha apresentada e um vilão desenhado, ambos com intensidade. 

Fúria Incontrolável

‘Fúria Incontrolável’ é um filme maniqueísta, e nem se esforça em parecer o contrário. Os personagens de Crowe e Caren Pistorius representam opostos absolutos, um representando todo o mal da sociedade de hoje e outra uma parcela de desvalidos sociais momentâneos, azarados eventuais que tropeçam em problemas em profusão – ou seja, a maior parte dos tipos comuns que esbarramos diariamente, e muitas vezes somos nós. Com eficiência, o filme amarra o espectador em uma narrativa padrão que funciona à perfeição com seu escapismo brutal e adrenalina ininterrupta de fácil assimilação. 

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O diretor Derrick Borte, apresentado ao cinema no criativo ‘Amor por Contrato’, aqui não está a disposição de um roteiro à altura de seus intentos, mas ele elabora seu plano imagético de maneira pulsante, muita confiança no material que consegue produzir e nas emoções capazes de surtir no espectador os efeitos necessários a um thriller à moda antiga; emoções baratas sim, mas o filme as executa com excelência, com uma edição tão bem executada (um dos responsáveis, Michael McCuscker, tem experiência no assunto ‘on the road’ – ganhou um Oscar por ‘Ford vs Ferrari’) ditando um crescendo de tensão e ritmo que a avaliação final, enquanto produto, é muito louvável. 

Fúria Incontrolável

O que falta ao roteiro de Carl Ellsworth (responsável por outros materiais de igual estirpe, como ‘Paranoia’ e ‘Voo Noturno’), que é, na melhor das hipóteses, muito prático e direto, sem firulas e qualquer refinamento, a direção de Borte compensa essa mesma visão simplificada do objeto filmado, cuja elaboração está muito empregada no campo da realização macro – o filme é um material inteiro, e o diretor é um maestro que rege todos os elementos da esfera cinematográfica. Posto isso, o trabalho de composição visual do cineasta até pode não primar pela construção metafórica, mas seu dinamismo e sua (ok, rasa) reflexão sobre o estado de descontrole atual elevado a enésima potência, aliado ao teor vertiginoso da narrativa, colocam o resultado final em posição destacada. 

Assistir ‘Fúria Incontrolável’ e lembrar que ele foi um dos raros sucessos comerciais dos cinemas americanos durante a pandemia do COVID-19 no ano passado, nos coloca frente a certeza de que o público, muitas vezes, ressente de não encontrar mais produtos de rápido consumo e sem elaborações narrativas, quase como uma limpeza para o próximo grupo de questões filosóficos e fílmicas. Longe da perfeição ou de se impor a algo do tipo, ‘Fúria Incontrolável’ é uma descarga de emoções tão facilmente assimiláveis quanto esquecíveis, até o próximo grupo de ‘guilty pleasures’ da temporada.

Um grande momento
O encontro no café

Ver “Fúria Incontrolável” no Prime Video

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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