Crítica | Streaming

Gandhi

(O discurso na pedreira, GBR/IND, 1982)
Drama
Direção: Richard Attenborough
Elenco: Ben Kingsley, Rohini Hattangadi, Roshan Seth, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Günther Maria Halmer, Athol Fugard, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee
Roteiro: John Briley
Duração: 191 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

O que ainda faz sentido de ser analisado em uma produção tão antiquada quanto Gandhi, o vencedor de 8 Oscars dirigido pelo dono do Jurassic Park, Richard Attenborough? Justamente seu anacronismo nos dias de hoje. São seus conceitos mecânicos de explorar o alicerce pictórico da obra que ainda mantém sua relevância decadente. Ainda que seus conceitos narrativos ainda ecoem hoje em recepção bem menos efusiva que outrora, os tempos das superproduções que utilizavam mão de obra humana provavelmente perderam a força pela mesma modernidade que lhe tirou o brilho; o CGI matou o épico?

Produções como Avatar e Senhor dos Anéis e seus infinitos derivados provam que não, mas essa grandiloquência humana palpável não existe mais. Mas a chegada de Gladiador às telas mostrou o novo estado das coisas: o computador amplificaria o que produções frágeis narrativamente como a biografia do líder pacifista indiano mantinha como bastião e no qual suas qualidades ainda estão apoiadas. Por maiores que sejam as qualidades do filme de Ridley Scott, sabemos que as câmeras não podem se aproximar daquelas multidões pois se tratam de compilações computadorizadas. E nessa seara, quase nessa única, Gandhi permanece impressionante.

Várias dessas cenas no inexplicável vencedor de 1983 foram dirigidas com irritante burocracia, independente de seus feitos na chave da produção. Mas a cada aglomeração unida em cena, o truque ótico no qual nos acostumamos hoje em dia é substituído pelo indivíduo puro e simples. Se um plano pedia a presença de 500 pessoas em cena, a figuração fazia o seu papel em reproduzir cada uma dessas concentrações exigidas pelo projeto. Ao menos duas sequências saem impávidas ao fim, a cena do massacre de 1.500 pessoas pela polícia britânica e o discurso de Mahatma numa pedreira, onde até onde a vista alcança enxergamos artistas fazendo o espetáculo acontecer.

As superproduções dos anos 80 eram filhas do cinema de David Lean sem um décimo de sua humanidade, delicadeza e sua essência épica, que com ele não aboliam o íntimo de suas relações. O que foi feito por Attenborough e o premiado (???) roteiro de John Briley desde o início parece um deboche: uma cartela abre Ghandi quase com um pedido de desculpas, onde a produção tenta acessar o coração do espectador e que ele não se preocupe com o tanto de saltos que uma biografia calcada em burocracias consequentemente precisa dar, para contar uma vida em sua totalidade. Filmes como Milk e Selma deixaram claro que não precisamos acompanhar a vida de ninguém da infância ao falecimento para conseguir acessar as essências dos biografados.

Além dessa infeliz prática desse tipo de escolha narrativa, ‘Gandhi’ não consegue verter carisma à sua vertente política (como ‘Lincoln’ facilmente alcança) ou ao seu universo interior, tratado com displicência com exceção de uma única cena, tão rara que se destaca na produção, quando a esposa do personagem se recusa a lavar latrinas. Tá na gênese dessa sequência tudo o que a produção poderia ter alcançado se abrisse mão de tentar abraçar mais de 50 anos de História – que 3 horas de fato não conseguem cobrir com qualidade narrativa.

Alia-se a esse recorrente erro a forma insípida com que o diretor conduz seus planos e decisões imagéticas. Com exceção do empenho de produção e de ambição megalômana das cenas citadas há alguns parágrafos acima, não encontramos esforços em sobressair suas imagens para além de simplesmente filmar as cenas, sem qualquer ambição de luz ou estética, completamente diferente de qualquer outro filme de ambição épica como esse pretenderia. Como não há um pensamento para significar aquelas imagens, qualquer análise a respeito de um projeto como esse resvala no caráter inútil do mesmo, já que seu material bruto não se dedica a nada além de narrar esquetes.

Mesmo uma discussão aprofundada sobre polarização e como dominados podem eventualmente servir de massa de manobra para o dominante acabe por se mostrar inócua, a partir do momento que seu filme Gandhi não traduz em imagens essa dicotomia, apenas textualmente, o que avança no terreno do didatismo ao fim da projeção. Além das questões moralmente ambíguas que advém do fato de britânicos, exatamente o povo que seviciou a Índia por tantos anos e de alguma forma propiciou o alinhamento de dados que levaram ao assassinato de Mahatma Gandhi, serem os responsáveis por sua biografia. Um líder de ideias tão apaziguadoras quanto desafiadoras não merecia um retrato tão sem alma.

Um Grande Momento:
O discurso na pedreira

Links

IMDb

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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