Crítica | Streaming

Glass Onion: Um Mistério Knives Out

Como as melhores cebolas...

(Glass Onion: A Knives Out Mistery, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense, Comédia
  • Direção: Rian Johnson
  • Roteiro: Rian Johnson
  • Elenco: Daniel Craig, Edward Norton, Janelle Monáe, Kate Hudson, Leslie Odom Jr., Kathryn Hahn, Dave Bautista, Jessica Henwick, Madelyn Cline, Noah Segan, Hugh Grant, Ethan Hawke
  • Duração: 135 minutos

As primeiras exibições de Glass Onion: Um Mistério Knives Out, ainda no Festival de Toronto, davam conta de acessos de riso incontroláveis por parte do público. Terminada a minha sessão, me pergunto onde foram parar tais cenas de humor escancarado; talvez tenham sido cortadas da minha versão. No lugar desse humor desbragado, cujo riso corre solto (e não chegou até mim), temos mais uma chique atualização dos contos de Agatha Christie, dessa vez elevada à enésima potência. Se o humor continua faltando aqui para a minha apreciação, posso dizer que finalmente Rian Johnson me pegou na sua franquia – sim, conforme já anunciado, a Netflix fechou acordo para um plural de títulos. Ainda bem. 

Não tinha me convencido em absoluto da validade da primeira versão, e me sentia um daqueles chatos e ranzinzas (até como costumo ser, muitas vezes) que não conseguiu embarcar na piada contada pela primeira vez. Pra não perder o trocadilho, a piada exatamente continua sem me pegar, mas o que vejo finalmente tem charme, elegância, e mesmo fechado em um ambiente quase o tempo todo, com um leque de possibilidades muito mais ampliado. Vejo, agora, um projeto cujas possibilidades não apenas são largas o suficiente para uma franquia, mas que essa franquia tenha essa capacidade de entreter e seduzir amplamente por um autor que encontrou o seu lugar, se entendendo a lugares múltiplos. 

Glass Onion - Um Mistério Knives Out
John Wilson/Netflix

Ao se cercar de um espaço limitado até certo ponto, Johnson aproveitou esse campo para voar enquanto realizador. Com um roteiro bem mais elaborado, cuja sofisticação não se prende a complexificar sua narrativa, e uma direção nada óbvia e cheia de homenagens ao cinema noir clássico através de sua construção imagética sem deixar de compreender que seu público é o de hoje, Glass Onion nunca deixa de oferecer imenso prazer ao espectador. Com um título intrigante (passei meses tentando compreender o que de tão enigmático teria em ‘cebola de vidro’), até isso é um acerto; se comunica o tempo todo com a narrativa, existe na literalidade e ao mesmo tempo, como o legume, apresenta camadas e mais camadas a quem a descobre. Essa é a essência da produção, que vem literalmente em busca de entretenimento, sem vergonha. Mas quer mais e oferece mais, sempre.

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Em tempo acertado onde o autorismo volta com força total à apreciação da cinefilia, e o diretores que exploram o escapismo são louvados com merecimento, Johnson mostra que o poder da imagem pode construir um espetáculo visual de primeira, que te leve pela mão para conhecer um universo, mas que tais imagens não precisam existir de maneira órfã. Quem foi que disse que um roteiro, independente de ser bom ou ruim, é absolutamente descartável, e que um diretor sozinho realiza um trabalho de superioridade inquestionável? Ainda que esse caminho seja possível – e eventualmente sim, de vez em quando vemos pastéis de vento caríssimos que nos mantém conectados às suas imagens bonitas por 2 ou 3 horas, às vezes até mais – negar uma obra como a de Johnson é, aí sim, a verdadeira piada por trás de Glass Onion: Um Mistério Knives Out.

Johnson, que já tinha se provado anteriormente, aqui reafirma suas capacidades e seu alcance, mais uma vez reciclando a História do Cinema para um público muito afoito para se conectar em historicidade. O faz de maneira explícita (as cenas onde se desdobram a falta de luz na ilha são de chorar de tão bem desenvolvidas, arquitetadas e realizadas), mas sem tornar cansativa sua imersão, e oferece sofisticação a quem só procurava diversão. Parece simples que o filme tenha tanto sucesso em seu material imagético, mas tudo é construído de maneira nada ostensiva, sem esbanjar serviço. São imagens subliminares que farão sentido em tomadas posteriores, é uma costura que se solidifica com novas apreciações, e é das mais eficazes utilização de flashbacks no cinema nos últimos anos. Porque, como uma boa cebola, a cada nova camada revelada, todo um novo grupo de compreensão é adquirido. 

Glass Onion - Um Mistério Knives Out
John Wilson/Netflix

O elenco, dessa vez, não tem o star power do anterior, mas ninguém está em cena à toa. Daniel Craig está cada vez melhor como o Benoit Blanc que, a essa altura, já é um personagem icônico; seguro de si e absolutamente à vontade, ele ocupa cada espaço livre da tela para esgueirar-se e dar voz ao seu talento de intérprete. Eu diria que há mais de década que Kate Hudson não estava tão plena e esfuziante, um acontecimento em cena, repleta de molho e mostrando como boas atrizes podem ser apagadas pelo desastre. Já Edward Norton nunca perdeu a majestade em mais de 25 anos de cinema, e seu talento não tem fim ou medida, é um elástico que não para de esticar. Kathryn Hahn, Dave Bautista, Leslie Odom Jr. e Jessica Henwick, um pouco mais elevada, formam um coro perfeito, em sintonia com o todo. Mas, como todos já sabem e comentaram, o show é de Janelle Monáe mesmo, que faz o que pode, torce e retorce nossas expectativas e nunca está menos do que hipnótica em cena. 

Elenco exposto, Glass Onion é maior do que suas estrelas, e talvez quase corra paralelo à elas, porque seu autor nunca nos deixa na mão. Com uma câmera muito apurada diante do que quer proporcionar, revelando a cada novo bloco de eventos novas interações visuais diante dos mesmos quadros, é apetitoso conferir essas revisitações de Johnson, em cena aberta. Muito consciente dos lugares onde pode e quer ir, ele eleva Entre Facas e Segredos a um lugar de requinte estético que chega a emocionar. Não é apenas uma brincadeira de criança cinéfila que se transformou em realidade, mas é esse jogo conduzido com o máximo de talento e conhecimento do universo que homenageia possível. Sem utilizar um ponto fixo de referência, Rian Johson calha tornar-se, ele mesmo, a referência para o futuro em torno de um filão que ele tem orgulho de empunhar, transformando predicados em material de ação direta. 

Um grande momento

Andi se esconde no corredor escuro

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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