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Hannah Gadsby: Douglas

((Hannah Gadsby: Douglas, AUS, 2020)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Hannah Gadsby
  • Roteiro: Hannah Gadsby
  • Elenco: Hannah Gadsby
  • Duração: 72 minutos
  • Nota:

Há cerca de um ano Hannah Gadsby saiu definitivamente do anonimato com seu show Nannette, que invadiu a plataforma Netflix ressignificando o conceito de stand-up, o conceito de comédia e talvez até o conceito de autoimagem. Do alto de uma depreciação típica dos profissionais cômicos que se apresentam solo, o que a australiana fez ano passado foi gerar empatia a partir de si, mas nunca exclusivamente para si. Com um molde desenhado típico da cultura crescente da comédia solo no mundo, Hannah em seu show anterior jogava luz sobre aspectos obscuros de sua própria história para rasgar tal molde sem jamais negar suas óbvias origens, mas subvertendo-as. O novo Douglas é mais uma prova da inquietação de uma artista especial e complexa.

Dessa vez, Hannah não apenas abraça o molde como nos surpreende ao abrir seu show com uma espécie de glossário do que acontecerá na próxima hora, passo a passo. A artista demonstra confiança no potencial de seu texto e da sua verve para manter um show de pé que foi previamente “revelado” inteiro, transformando essa nova dose de subversão em um novo roteiro repleto de camadas desde essa concepção inicial. Ao longo do próprio show, ao percebermos que a artista em nenhum momento nos enganou e sem entregou previamente o cardápio do que acompanharíamos a seguir, o público de Douglas é embolsado e fica refém de uma estrutura que é, ao mesmo tempo, absolutamente conhecida e também surpreendente por sua coragem e despojamento.

Ao olhar para estrutura conhecida do universo do stand-up e, um ano antes reinventar, e agora obedecer para, por trás do muro piscar para o espectador rumo a mais uma sacada de mestre, Hannah se eleva ao formato ao mesmo passo que o notabiliza para além das cercanias esperadas. Quando Nannette surgiu, o burburinho que corria era de que “mesmo que você não gostasse do formato, deveria dar uma chance”, mesmo que o projeto nunca tenha tido o interesse de diminuir o formato. Agora em Douglas o barato da australiana é entregar exatamente o que se espera ao público do gênero – e dentro do formato dar as habituais rasteiras que Hannah tem acostumado no público, o seu e o típico da estrutura.

Hannah Gadsby: Douglas (2020)

Mais uma vez (e como reza a estrutura do formato) Hannah se observa sob forte luz crítica, o que a une automaticamente ao público presente e posterior. Ao abrir o show, a comediante diz que não tem mais sobre o que se debruçar, tendo em vista que não tinha como mensurar o alcance de Nanette e por isso teria jogado todas as suas idiossincrasias no show anterior. Pois não demora 5 minutos pós-declarações para Hannah revelar uma nova fatia de sua personalidade, e que acaba por se desenhar como uma peça faltante de um quebra-cabeça que finalmente faz agora sentido geral. A sagacidade do texto é tão intensa que, mesmo fazendo parte do prólogo da obra, tal revelação volta a impressionar quando “é feita”, exatamente da forma como a autora declarou que aconteceria.

Quem espera da obra de Hannah Gadsby gargalhadas irrestritas e incansáveis como num típico show do gênero, é bom entrar preparado – mais uma vez. A autora tem plena consciência de sua estrutura exigente e tenta tirar do sério sua própria criação, sempre movendo a narrativa que desenvolve rumo a uma ironia. Ainda que seu público se dobre facilmente à seu modo peculiar de tratar suas próprias relações humanas e o azedume que ela desfila e que a humaniza, Douglas em determinado momento se transforma em um espetáculo de humor rasgado sem jamais perder a inteligência. Quando entram em cena as projeções da Renascença e os comentários sobre a natureza das Tartarugas Ninja, o especial se abre, se populariza e se transforma, preenchendo todos os espaços do humor.

Ainda que dessa vez a autora pareça mais incisiva, indignada e irascível em postura e diante do que a move, Hannah se coloca como alvo o tempo todo – principalmente de haters, do qual ela responde com novas doses de enfrentamento. Sem o frescor de sua bem sucedida empreitada anterior, Douglas se alicerça na certeza de ser um produto e se vender como tal; Nanette era orgânico justo por transcender uma naturalidade que seu novo show abertamente nega. Tudo é “roteirizável”, por mais íntimo que possa parecer. Perdendo em provável sensibilidade, Hannah quer mostrar dessa vez os bastidores de sua criação interna. Com isso, expõe uma exímia profissional e um ser humano cada vez mais espinhoso e multifacetado.

Um Grande Momento:
A Renascença

Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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